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Brasil

Oposição não consegue capitalizar protestos

Políticos como Aécio Neves e Geraldo Alckmin são hostilizados em São Paulo, num sinal de que discurso antissistema também se volta contra oposicionistas. Para analista, Brasil vive uma crise de representação.

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Protesto na Avenida Paulista: Aécio Neves e Geraldo Alckmin foram hostilizados

A presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula foram os alvos claros da manifestação de domingo (13/3), mas os planos da oposição de capitalizar diretamente em cima dos protestos saíram chamuscados.

Esperava-se que o ato marcasse o estreitamento dos laços entre os movimentos de rua e os políticos que desejam a saída de Dilma, o que também sepultaria de vez a ideia de que as manifestações eram apartidárias. Pela primeira vez, vários figuras de peso da oposição desembarcariam oficialmente juntas nos protestos. O gesto, porém, despertou em vários casos, hostilidade por parte da multidão.

O caso mais representativo envolveu o senador e presidente do PSDB, Aécio Neves, e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ambos com ambições presidenciais e rivais na disputa interna pela candidatura. Foi a primeira vez que Alckmin, antes um dos tucanos mais contidos em relação à saída de Dilma, compareceu a um protesto.

Só que, ao chegarem juntos na Avenida Paulista, onde ocorreu a maior manifestação do país, Alckmin e Aécio foram recebidos com vaias e uma enxurrada de palavrões. Um manifestante gritou “oportunistas” e logo o xingamento virou um coro. Vídeos mostraram manifestantes invocando as delações da Lava Jato (onde Aécio, assim como Lula e Dilma, também teve seu nome citado) e o escândalo dos desvios na compra de merenda escolar (que envolve a administração do governador).

Um manifestante gritou “o próximo é você” para Aécio, e uma multidão cercou os dois tucanos, que acabaram deixando o local após meia hora, sem discursar.

Aproximação falha

Ao longo do ano passado, o PSDB e outras siglas oposicionistas se limitaram a flertar com as manifestações, não mais do que gravando vídeos de apoio e expressando simpatia pelo movimento. Alguns políticos chegaram a comparecer em alguns atos, mas sem que a presença fosse considerada um apoio incondicional.

A partir do fim do ano passado, após o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), aceitar o pedido de impeachment contra Dilma, as siglas oposicionistas começaram a se aproximar mais dos movimentos de rua. PSDB, DEM, PPS e SD, além de dissidentes do PMDB, formaram um comitê de impeachment, e membros das siglas passaram a se reunir regularmente com líderes dos protestos, especialmente membros do Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua (VPR) para traçar uma estratégia conjunta nos protestos.

O presidente do comitê, o deputado Mendonça Filho (DEM-PE), explicou na semana passada os motivos aproximação . “A discussão em torno do impeachment chegou a um ponto que exige cada vez mais essa integração. Não há impeachment sem pressão popular, assim como não há impeachment sem o Congresso”, disse ao jornal O Estado de S.Paulo.

Se o plano desse certo, a oposição teria a sua disposição um palco e um público enorme para realizar comícios. Já os líderes dos protestos esperavam que os políticos oposicionistas ganhassem legitimidade para acelerar institucionalmente o impeachment.

Mas, pelo que se viu na Avenida Paulista, essa sintonia entre a oposição e os líderes das manifestações não foi bem recebida nas ruas. Além de Alckmin e Aécio, a senadora Marta Suplicy (PMDB-SP), uma defensora aberta do impeachment, também foi hostilizada e chamada de “perua” e “vira-casaca” pelos manifestantes e acabou deixando o local. No Rio de Janeiro, o deputado Índio da Costa (PSD) foi vaiado e impedido de discursar. Em Salvador, as vaias foram para o deputado José Carlos Aleluia (DEM).

Blogs e sites ligados ao PT não esconderam sua satisfação com a recepção hostil enfrentada por Alckmin e Aécio.

Crise de representação

O cientista político Renato Perissinotto, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), avalia que a oposição caiu em uma armadilha ao abraçar tão abertamente os protestos.

“Quando se adota um discurso contra o sistema, contra a corrupção em geral, é de se esperar que as pessoas percebam que os políticos que querem agora fazer parte das manifestações também fazem parte desse mesmo sistema, que usam caixa 2, que estão na Lava Jato. Uma insatisfação dessas ia se voltar contra eles”, afirma. “Os políticos não conseguiram e não vão conseguir capitalizar em cima dos protestos. As pessoas não estão se identificando mais com os partidos. Existe uma crise de representação”.

Parte dessa crise pode ser mostrada em uma pesquisa do Datafolha elaborada no domingo com manifestantes na Avenida Paulista. Os números apontam que apenas 21% declararam o PSDB como a sua sigla preferida. Na manifestação de março de 2015, o índice era de 37%. A maioria (68%) disse não ter um partido preferido.

Segundo o cientista político José Álvaro Moisés, da Universidade de São Paulo, as manifestações são uma representação do mal estar que impera entre a população com o funcionamento do sistema político. “É claro que o governo, até por estar mais implicado nos escândalos, é o maior alvo, mas a crítica também se estende à oposição, que também aparece em casos de corrupção. E no meio de uma grande massa que protesta, não há espaço para elaborar raciocínios como `a oposição talvez não esteja tão envolvida, os políticos são todos vistos como parte do sistema, são colocados no mesmo saco. Num clima antipolítico, as pessoas não distinguem cada caso, os escândalos são vistos como uma coisa só.”

Moisés também afirma que existe uma crise de representação no Brasil. “Isso é um fenômeno amplo, que ocorre quando um partido ou grupo chega ao poder e perde aquela conexão com os eleitores e a população, que passa a sentir que suas expectativas não estão sendo cumpridas. O problema é como essa frustração é canalizada, caso não apareçam alternativas. Na teoria, existe a possibilidade de as pessoas se alienarem ainda mais do processo político ou acabarem virando massa de manobra de um aventureiro”, conclui.

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