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Mundo

Opinião: Uma Guerra dos Trinta Anos no Oriente Médio?

A organização terrorista EIIL precipita a região num conflito religioso comparável à Guerra dos Trinta Anos da Europa no século 17, opina o redator-chefe da DW, Alexander Kudascheff.

Alexander Kudascheff

Alexander Kudascheff, redator-chefe da DW

A situação é alarmante: 10 mil homens, 10 mil combatentes religiosos, desafiam o Oriente Médio. Dez mil soldados da quadrilha terrorista EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante), tão fundamentalista islâmica quanto assassina, se encaminham para Bagdá com a intenção de tomar a capital e expulsar o primeiro-ministro iraquiano, encerrando assim o domínio xiita no país.

Seu objetivo é revolucionar a ordem do pós-guerra no Oriente Médio, eliminar os Estados nacionais, redefinir aumma, a comunidade dos fiéis muçulmanos, e fundar um califado, onde a lei tradicional islâmica sharia seja a medida de todas as coisas.

No Iraque e na Síria, onde o EIIL já domina com crueldade regiões e trechos de terra inteiros, se encontram, cheios de disposição, partidários do jihad, a prontidão política e religiosa à luta armada, à morte como mártir, com raízes nos primórdios da história do islã.

Contudo, os jihadistas sunitas liderados por Abu Bakr al-Baghdadi – cujo nome remete ao primeiro califa, ou seja, o sucessor do profeta Maomé – não desafiam apenas o premiê Maliki e os xiitas no poder em Bagdá. No momento, eles alastram o incêndio por toda a região. O Irã está disposto a apoiar os irmãos de fé iraquianos e tenta até mesmo – numa reavaliação de toda a política de alianças vigente – uma frente unida com os Estados Unidos, pelo menos na retórica. Mas o presidente Barack Obama ainda hesita se e como apoiará o primeiro-ministro em apuros em Bagdá.

Para o Irã, a defesa dos correligionários xiitas em Bagdá é um dever político indiscutível, do mesmo modo como, na guerra civil da Síria, apoiou o presidente alauita Bashar al-Assad, com ajuda das milícias xiitas do Hisbolá libanês.

Teerã também tem interesses de política regional na manutenção o eixo xiita Hisbolá-Síria-Iraque-Irã, o qual assegura sua própria influência. No entanto, para os aiatolás e mulás iranianos, que se veem a tradição do místico e carismático aiatolá Khomeini, seria impensável abandonar à própria sorte os xiitas oprimidos nos países vizinhos. Isso justificaria um jihad – a guerra santa.

A Síria vem sendo devastada há muito pela guerra civil, tanto entre Assad e a oposição como entre dos oposicionistas entre si – o EIIL contra o movimento democrático laico. Após quase 200 mil mortos e milhões de refugiados, tudo indica que Assad se manterá no poder e a guerra civil continuará. Um banho de sangue sem fim.

E ao redor disso estão os demais protagonistas no Oriente Médio. Os curdos se estabeleceram solidamente no norte do Iraque e não temem o EIIL. Sua força militar e sua autoconfiança política recém-conquistada desafiam a Turquia, a qual enfrenta com dificuldade a situação explosiva em sua fronteira com a Síria.

A Jordânia, há décadas sobrecarregada por milhões de refugiados palestinos, arca com a maior carga no acolhimento de refugiados sírios, juntamente com o fragilizado Líbano. E ninguém sabe quão estável é, de fato, a monarquia jordaniana internamente.

Para completar, a Arábia Saudita, a grande oponente do Irã no Golfo Pérsico, a maior rival deste na luta pela hegemonia intelectual e religiosa no Oriente Médio, guardiã das cidades sagradas de Meca e Medina. Seguidora dos ensinamentos puristas do wahabismo, a Arábia Saudita é um Estado religioso – com muito dinheiro. Ela tem apoiado a missão muçulmana por todo o mundo, inclusive formando diversos grupos radicais islâmicos. É um reino de dupla moral, que teme o jihadismo e ao mesmo tempo o promove, esperando que ele não se volte contra o domínio da dinastia saudita.

Entretanto, a visão insana do EIIL, de um califado, incorpora não apenas a Síria e o Iraque, mas também a Jordânia, o Líbano e, justamente, a Arábia Saudita, país de origem de Maomé. O "nome de guerra" Abu Bakr al-Baghdadi já é um indicador das fantasias de onipotência do terrorista.

Mesmo que seja vencido na batalha campal aberta, o jihadismo não estará derrotado, mas sim, na melhor das hipóteses, temporariamente sustado. O confronto no Iraque, a batalha por Bagdá, são o começo de uma nova guerra religiosa entre xiitas e sunitas. A região se vê à beira de uma Guerra dos Trinta Anos oriental. E a existência de Israel fica mais insegura do que nunca. Certo está que o Ocidente não pode ficar sem fazer nada.

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