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Alemanha

Opinião: Um pouco de RDA no novo governo da Turíngia

Apesar de ligações controversas com o velho regime comunista, ascensão do partido A Esquerda aos primeiros escalões traz chances para a Alemanha, inclusive em nível nacional, opina o articulista da DW Volker Wagener.

Deutsche Welle Zentralredaktion Volker Wagener

Volker Wagener, articulista da DW

O político esquerdista Bodo Ramelow passou pela primeira prova: agora ele é governador. Por um triz, mas é. No entanto, antes mesmo de seu empossamento, já fracassou fragorosamente no "teste Gauck".

O presidente da Alemanha, Joachim Gauck, é conhecido por comentar e interferir nos assuntos da política do país. Ele não faz segredo de seu rechaço, por princípio, ao partido A Esquerda.

Ele não o considera "suficientemente digno de confiança", devido à proximidade ideológica com extinto Partido Socialista Unitário da Alemanha (SED), do regime comunista da República Democrática Alemã (RDA), do qual a legenda A Esquerda é, em parte, sucessor.

Emitida logo após a eleição legislativa no estado da Turíngia, a opinião do presidente praticamente equivale a uma pena de morte política. E muitos alemães sentem da mesma forma.

Parte dos social-democratas turíngios verteu lágrimas de indignação ao discutir a coalizão de governo com A Esquerda. A forma como a legenda, que traz consigo a carga histórica do ditatorial SED, se metamorfoseia, de uma hora para a outra, em partido normal do governo, leva ao desespero é à ira muitos afiliados do Partido Social-Democrata (SPD) que viveram na antiga Alemanha Oriental.

No Oeste alemão, o fato também enfureceu muita gente, sobretudo nas alas conservadoras. Vinte e cinco anos depois da queda do Muro de Berlim, os antigos comunistas retornam aos primeiros escalões da política – eles, que só com enorme resistência finalmente admitiram que o regime da RDA foi um Unrechtsstaat, um Estado não constitucional.

Por outro lado, a ascensão esquerdista deixa felizes aqueles que, em termos de raciocínio estratégico político, se situam à esquerda da União Democrata Cristã (CDU), da chanceler federal Angela Merkel. É uma alegria furtiva, sobretudo entre os membros do SPD, o antigo partido do povo, que agora só representa um povinho.

O partido A Esquerda continua ocupando uma posição respeitável no Leste alemão, passados 25 anos da queda do Muro. Ele foi e é útil nas coalizões, e no nível municipal, é visto como facção de cunho social, próxima à população.

A demasiadamente humana tendência de se ater àquilo que se conhece desde a infância é a outra parte da explicação para a continuada aceitação dos herdeiros do SED pelos eleitores. O partido A Esquerda é um fator político no Leste, a mudança de sistema podou a sua influência, mas não o marginalizou.

Pelo contrário, pois aí está Bodo Ramelow. E isso tem seus motivos: o novo governador da Turíngia se torna interessante por não se encaixar no sociograma do esquerdista alemão oriental. Ou seja: por não trazer consigo o "cheiro de estábulo".

Ele vem do Oeste, é cristão luterano praticante e sua política econômica é a de um conservador. Ele rompe com quase todos os tabus, desmente todo clichê sobre os esquerdistas, mas é alguém que entende a problemática dos habitantes das regiões antes pertencentes à RDA.

Durante anos, Ramelow esteve na mira do Departamento Federal de Proteção da Constituição (BfV). Ele, o rebelde, que aos 14 anos de idade já sabia dar nó de gravata. Mas, que história de vida entre as duas Alemanhas!

O fato de os filhos da revolução pacífica do outono de 1989, que levou ao fim do regime da RDA, serem agora, neste ano do jubileu de prata da queda do Muro, regidos justamente pelos herdeiros do partido do governo comunista, indigna em especial os conservadores cristãos da CDU/CSU. Eles se perguntam: quanto SED ainda se oculta nos esquerdistas de Ramelow?

A desconfiança se aplica, por exemplo, ao deputado Frank Kuschel, oficialmente reconhecido como colaborador inescrupuloso do Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental. Ou a Ina Leukefeld, que na qualidade de agente da polícia criminal denunciava à Stasi os que tinham intenções de deixar clandestinamente a RDA. Esses e outros políticos são velhos pecados da esquerda, que ainda causam atrito 25 anos após o colapso do regime sediado em Berlim Oriental.

É nesse cenário que o SPD se apresenta agora, como sócio minoritário da coalizão governamental do estado da Turíngia. Uma situação, no mínimo, picante, uma vez que os social-democratas do Leste se viam como dissidentes e opositores do SED. Para alguns deles, isso é uma imposição inadmissível – e no entanto o SPD quer participar do governo sob Ramelow. É sem dúvida uma manobra ousada. Mas também uma chance.

Na escala menor de um estado federado, pode-se experimentar bem. Afinal, a aliança entre social-democratas e verdes em Hessen, na década de 1980, não foi um teste para a era com Gerhard Schröder e Joschka Fischer no governo federal?

Nos quadros federais do SPD, ninguém admite isso abertamente, mas, de fato, a Turíngia é agora um laboratório experimental para Berlim. A estreia dos esquerdistas no governo turíngio abre para os social-democratas uma opção estratégica à assim chamada Grande Coalizão, com os conservadores da CDU/CSU.

Há muito, uma associação com o Partido Verde não garante o peso necessário no nível federal. O Partido Liberal (FDP) é coisa do passado; e numa aliança com a poderosa CDU da chanceler federal Angela Merkel, só sobra mesmo para o SPD o papel de sub-xerife.

Se o Partido Social-Democrata quiser competir nas eleições federais de 2017 com um candidato próprio à chefia de governo, a única alternativa é uma aliança com os verdes e o A Esquerda. Contudo isso traz seus riscos. Nem todos no SPD consideram boa essa opção de poder, e atualmente os verdes também conseguem se relacionar com os conservadores.

Se fosse uma peça de teatro de província, o primeiro governo estadual do Esquerda teria como titulo "Um pouquinho de RDA na Turíngia". Ele é não apenas de um cenário de teste para os esquerdistas, mas também um laboratório experimental para os social-democratas.

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