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Mundo

Opinião: UE treme diante de loucura política na Itália

Morto-vivo da política italiana, Berlusconi lançou o país no caos ao retirar seus ministros do governo. Agora, solução duradoura depende de Beppe Grillo, profeta da negação e do protesto. Analista Bernd Riegert comenta.

A coalizão de governo da Itália, formada por social-democratas e conservadores, mal durou cinco meses. No pleito de fevereiro deste ano, os eleitores não concederam maioria a nenhum dos partidos, forçando uma funesta associação entre a esquerda e o partido do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi. Assim, em abril, o chefe de governo Enrico Letta embarcou num projeto quase impossível: reger a Itália de forma estável e conduzi-la para fora da dramática crise econômica.

Deutsche Welle Bernd Riegert

Bernd Riegert

Agora esse governo fracassa ostensivamente, devido ao comportamento irresponsável e egocêntrico de Silvio Berlusconi. O sonegador condenado pela Justiça se agarra a seu posto no Senado, chantageia o governo, utilizando-se, para tal, de seu submisso partido, o Povo da Liberdade (PdL), que ele administra como se fosse uma empresa privada.

Berlusconi – que neste domingo (29/09) completa 77 anos – retirou seus cinco ministros de Roma devido à intenção explícita do Senado de aplicar contra ele a sentença legalmente válida de afastamento.

Com toda frieza, sem considerar os danos que podem resultar à Itália e talvez a toda Europa, Berlusconi mexe seus pauzinhos. Ou será que ficou maluco, como supõem o premiê Letta e o presidente da Confindustria, Giorgio Squinzi, entre outros?

Coalizão sem base

Enquanto Berlusconi faz estardalhaço no grande palco da política italiana, nos bastidores já estava claro, praticamente desde o início da grande coalizão, que as concepções da esquerda e da direita na política econômica e tributária não batem.

Até hoje, Roma não foi capaz de implementar qualquer resolução mais incisiva. Seguem adiados tanto o planejado aumento do Imposto de Valor Agregado quanto a nova regulamentação dos impostos imobiliários. A Itália vem mancando, lá atrás, no que diz respeito aos projetos de reforma mais relevantes. Iniciativas contra o desemprego são quase inexistentes.

Em maio, a União Europeia suspendeu o processo relativo ao déficit público da Itália. Agora, tudo indica que o país terá novamente que se endividar mais do que esperava. Em outubro chega a hora da verdade: o comissário de Finanças da UE, Olli Rehn, vai colocar os números na mesa e examinar o orçamento público italiano para o próximo ano – se é que haverá uma proposta de orçamento, sem um governo operante em Roma.

Em Bruxelas ainda reina o silêncio, mas nas instituições europeias, e sobretudo nos demais países-membros da zona do euro, o clima em relação ao caos na Itália varia da incompreensão ao pavor. Os números básicos da economia nacional acabavam de manifestar uma modesta melhora. Será que os partidos não tinham nada melhor a fazer, do que provocar mais outros meses de estagnação política?

Pressão dos mercados

Há um ano, os mercados financeiros vêm dando aos italianos um pouco de espaço para respirar. O Banco Central Europeu comprou títulos públicos do país e garante que seguirá intervindo. No entanto, a partir da última sexta-feira voltou a subir o preço que Roma tem de pagar por suas dívidas excessivas.

A taxa adicional de risco – ou il spread, difamado como invenção alemã por Berlusconi, em sua campanha eleitoral – é dura realidade. Dentro de curto prazo, os juros poderão esmagar a Itália. A crise está apenas adormecida, não superada, de modo algum.

Se a situação voltar a piorar na Itália, também o restante do sul da Europa vai sofrer. No fim das contas, a crise pode novamente se alastrar por toda a zona do euro, e aí os países do norte teriam que disponibilizar mais verbas e garantias para estabilizar a Itália.

Eleições antecipadas

Em novembro de 2011, os chefes de Estado e de governo da UE conseguiram expulsar do cargo o então primeiro-ministro Silvio Berlusconi, num momento em que seu país se dirigia vertiginosamente para o abismo político financeiro. Porém, mesmo essa intervenção maciça pouco adiantou: Berlusconi prossegue manipulando os fios. A situação na Itália só melhorou ligeiramente. Em Bruxelas, o clima é de perplexidade.

Por isso, nos últimos dias, políticos europeus tentaram por todos os meios demover os protagonistas na Itália de se afundarem numa nova crise de governo. Tarde demais: a crise é um fato, e terminará em eleições antecipadas, dentro de alguns meses.

Até lá, o ancião presidente Giorgio Napolitano deve voltar a instaurar um governo de tecnocratas, como último recurso capaz de conter o alastramento do desastre italiano pelos outros Estados da união monetária. A experiência também mostra, porém, que um governo tecnocrata não costuma durar mais de um ano.

"Cavaliere" volta a atacar

Na Itália, três partidos inconciliáveis atualmente se confrontam: os socialistas, os apóstolos de Berlusconi e os apoiadores do negativista radical Beppe Grillo. Está totalmente em aberto de que forma se comportarão agora os grillini, os frustrados eleitores dos votos de protesto. Grillo predissera repetidamente que o sistema italiano iria se sufocar em si mesmo, antes que nascesse algo de novo. Talvez ele tenha razão.

Entretanto, a facção em torno de Berlusconi é mais forte do que se pensa, fora da Itália. Apesar de todos os escândalos e gafes do "Cavaliere", quase um terço dos eleitores optou pelo PdL. E o morto-vivo político pretende voltar a fundar seu antigo partido, o Força Itália, para, no próximo pleito, voltar a ser chefe de governo.

Em nome dos interesses da Itália e da Europa, só se pode torcer para que o plano de Berlusconi não vingue. No entanto, o país só estará apto a ser governado se o eurocético Beppe Grillo se movimentar, ou se a ala real-política dos grillini desertar para a esquerda.

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