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Mundo

Opinião: Turquia, uma aliada difícil

País poderia impedir um massacre do "Estado Islâmico" na sua fronteira com a Síria. Se continuar hesitando em agir, será considerado corresponsável pelos acontecimentos, opina o jornalista da DW Christoph Hasselbach.

Christoph Hasselbach

Christoph Hasselbach

As milícias do "Estado Islâmico" (EI) estão na sitiada cidade síria de Kobane, na fronteira com a Turquia. A partir do lado turco, é possível ver as bandeiras pretas do grupo. Sob o olhar do Exército turco, um banho de sangue de civis curdos pode acontecer em Kobane. Mas, até agora, a Turquia não interveio.

O aval parlamentar já saiu. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, poderia utilizar os militares na Síria contra os combatentes do "Estado Islâmico" (EI) a qualquer momento. Mas ele hesita. A Turquia é, depois dos Estados Unidos, o membro da Otan que possui as maiores forças terrestres da aliança, que poderiam complementar os ataques aéreos dos EUA. Especialistas concordam que, sem o uso de tropas terrestres, não há esperança para a luta contra o "Estado Islâmico". Assim, provavelmente caberá à Turquia a decisiva responsabilidade militar de acabar com a matança dos fanáticos do EI.

Até agora, a situação não é um caso para a Otan. Além de granadas ocasionais, não há ataques do EI em território turco. O enclave da Turquia na Síria com o mausoléu de Suleyman Shah, considerado o avô do primeiro sultão otomano, também se manteve intacto até agora, embora o EI controle toda a área ao redor.

Se os parceiros da Otan considerariam um ataque ao enclave um caso para a aliança, ainda não está claro. Mas no caso de um ataque à própria Turquia, o país poderia indubitavelmente reivindicar a interferência da aliança. O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, disse especificamente que a aliança protege "a integridade, as fronteiras da Turquia".

Mas este não é o caso no momento. Os aliados ocidentais da Otan duvidam dos motivos de Erdogan. O vice-presidente dos EUA, Joseph Biden, criticou a Turquia, afirmando que, para se livrar do presidente sírio, Bashar al-Assad, ela apoiou jihadistas. Biden pediu desculpas depois, e a Turquia declarou o assunto como encerrado.

Mas o vice de Barack Obama apenas expressou o que muitos pensam no Ocidente: que a Turquia, ao menos até certo ponto, simpatiza ou simpatizava até recentemente com o EI. Um forte indício para isso é que, em troca de reféns turcos mantidos pelo EI, foram libertados jihadistas presos em presídios da Turquia, incluindo alguns de países da União Europeia (UE). Tudo isso mina as já tensas relações entre o Ocidente e o governo turco.

Qual é a estratégia de Erdogan? Na verdade, ele está entre a cruz e a espada. Se se aliar aos EUA na luta contra o EI, precisará lidar com a ameaça de ataques islâmicos no próprio país. Além disso, ele não quer fortalecer nem Assad nem os curdos. É preciso considerar que, durante décadas, militantes curdos foram o inimigo interno número um da Turquia.

O argumento inicial de Erdogan de que, enquanto reféns turcos estivessem sob domínio dos islamistas, suas mãos estariam atadas, não se aplica mais. Mas a Turquia impõe condições para participar da luta contra o EI: o afastamento do presidente Assad – do "satanás", como o chamou o primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu – deve continuar sendo o objetivo.

A coalizão liderada pelos Estados Unidos também deve estabelecer uma zona de proteção dentro da Síria. Essa zona deve proteger a população civil curda – que, assim, não precisaria mais fugir pela fronteira – e garantir segurança militar à Turquia. Em outras palavras, a Turquia espera uma estratégia abrangente de segurança, também para o período depois de uma vitória contra o EI. Mas isso é exigir demais de uma coalizão que parece estar sobrecarregada com suas tarefas autoimpostas.

A Turquia pode ter tido razões, em parte compreensíveis, para a sua hesitação e seu pesar. Mas chegou a hora de encerrar as ponderações estratégicas. O Exército turco não pode ficar apenas olhando os militantes do EI continuarem, diante de seus olhos, com a matança da população civil curda. Se a Turquia permitir isso, a opinião pública mundial vai considerá-la corresponsável pelos acontecimentos.

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