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Mundo

Opinião: Talvez estejamos bem demais!

Desinteresse e ceticismo marcaram a eleição do Parlamento Europeu. Mas os europeus precisam reaprender a valorizar as conquistas históricas da UE, opina Christoph Hasselbach.

Ninguém pode dizer que o resultado foi como tinha que ser. Mas ele foi como vinha sendo esperado. O próximo Parlamento Europeu será ainda mais fragmentado do ponto de vista político do que já era até agora. Extremistas de esquerda, de um lado, mas principalmente de direita, de outro, irão ocupar assentos em Estrasburgo com força de pelotão.

Christoph Hasselbach

Christoph Hasselbach

A participação no pleito também variou de país para país. Em alguns, o número de votantes até aumentou, mas na maioria dos casos quem saiu ganhando com isso foram justamente os eurocéticos, que veem a União Europeia de forma crítica.

No geral, o interesse dos cidadãos europeus pela União Europeia é assustadoramente baixo. E isso apesar de os partidos terem claramente se esforçado para motivar os eleitores. Pela primeira vez, os principais candidatos nomeados viajaram pelo continente e participaram de debates. Mas a tentativa de personalizar a campanha, torná-la mais viva e aumentar sua relevância surtiu pouco efeito.

Extremistas não têm projeto

O que tranquiliza é que o Parlamento Europeu vai continuar operacional, apesar das bancadas anti-europeias. Deputados do Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip), do francês Frente Nacional ou do Partido do Povo Dinamarquês farão discursos inflamados, mas na realidade não poderão bloquear nada. Para isso, eles provavelmente são muito diferentes entre si, e muito "nacionais".

Sua retórica se dirige em primeira linha aos eleitores de seus países de origem. Eles almejam apenas ser a voz dos descontentes em vez de realizar projetos comuns. Em contrapartida, os partidos pró-europeus de centro se verão forçados a unirem-se ainda mais. Não, os extremistas não representarão uma verdadeira ameaça, pelo menos não no Parlamento Europeu.

A UE é mais que padrões para pepinos retos

Inquietante é acima de tudo a apatia entre os eleitores, ou melhor, entre os não-eleitores, que aumentaram em toda a Europa. Para a grande maioria, as conquistas sem precedentes da cooperação europeia parecem ter se tornado tão óbvias que elas serão automaticamente perpetuadas: paz, viagens sem fronteiras, livre opção para trabalhar e estudar, moeda única, mercado interno livre.

Mas essas conquistas não são nada óbvias e podem perder-se novamente. É preciso lutar por elas, sempre. Só que nas campanhas eleitorais por vezes transpareceu a sensação de que a União Europeia só serve para proibir lâmpadas incandescentes ou para impor padrões como o já há muito abolido mas sempre citado regulamento sobre a curvatura do pepino.

Crise esquecida

O exemplo da crise da dívida europeia evidenciou o quão rapidamente pode ser quebrada uma ordem aparentemente irrefutável. A UE estava à beira do abismo. De certa forma, essa crise foi superada, mas só devido ao esforço conjunto, a cooperação e disciplina. Se cada país tivesse buscado por si uma saída individual para a crise, todos teriam perdido, inclusive as economias mais fortes. Será que isso já faz tanto tempo que não pode mais servir de lição?

O que está em jogo na Europa também vem à tona na crise da Ucrânia: 25 anos após o fim da Guerra Fria, corremos o risco de entrar em um novo e duradouro conflito europeu.

O fato de a Ucrânia quase não ter tido importância nas campanhas para as eleições europeias é surpreendente. Pois a UE é o melhor exemplo do que podem alcançar o equilíbrio pacífico e a cooperação.

Vendo de fora

Pretendem os críticos da integração comprometer tudo isso? Eles deveriam perguntar a pessoas de outras partes do mundo o que pensam do projeto europeu. Na última eleição europeia, em 2009, me encontrei em Bruxelas com um observador eleitoral africano. Quando foram divulgados os baixos índices de comparecimento às urnas na época – que se repetiram agora – de 43%, ele balançou a cabeça e disse: "Em muitos países africanos, ficaríamos felizes só por poder votar livremente. E vocês na Europa desperdiçam este direito". Foi humilhante.

Se acreditamos não ter outros problemas na União Europeia, a não ser nos incomodar com regulamentações excessivas, então estamos indo muito bem. Talvez bem demais para saber valorizar o milagre de quase 70 anos de paz e prosperidade que nos une.

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