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Mundo

Opinião: Renúncia de Bento 16 foi digna

O anúncio do afastamento voluntário do Papa surpreendeu o mundo. Entretando a decisão possibilita novo começo para uma Igreja em crise, interpreta Bernd Riegert, analista da Deutsche Welle.

Deutsche Welle Hintergrund Deutschland Bernd Riegert

É uma revolução. A renúncia de um papa não ocorria há mais de 700 anos. Oficialmente, o pontífice de 85 anos renunciou devido a seu estado de saúde que se deteriora rapidamente. Mas, nas entrelinhas de sua mensagem proferida em latim, é possível entrever que a Igreja está cada vez mais difícil de liderar, em tempos difíceis como estes. Tempos em que a fé "é jogada para lá e para cá" disse Bento 16, e agir condizentemente.

O Papa, que não é um "homem do povo" como seu antecessor polonês, e sim um brilhante teólogo e intelectual, sempre teve problemas com o posto. Essa impressão ele também deixou em 2011, durante sua viagem pela natal, a Alemanha. Na época, muitos o criticaram por haver perdido o contato com as preocupações dos católicos comuns.

A renúncia agora também abre a possibilidade de que ascenda à Cátedra de Pedro um novo papa, mais aberto a reformas, e que encontre respostas para a crise católica na Europa e América do Norte, onde a Igreja vem perdendo cada vez mais membros e não encontra novos sacerdotes.

É sábio Bento 16 ter decidido não morrer no cargo. A longa e persistente doença de seu antecessor, João Paulo 2° ainda está fresca em nossa memória. Joseph Ratzinger evitou essa agonia pública. Ele poderá dedicar seus últimos anos à sua grande paixão: escrever livros teológicos.

A decisão não foi tão inesperada assim. O próprio Ratzinger já havia dito anos atrás que papa só deve ser aquele que tenha forças exercer tão exigente posto. Só o momento escolhido foi uma surpresa. No Vaticano, os mais bem informados acreditavam que Bento 16 só iria anunciar sua renúncia depois da Páscoa. O Papa havia sido pessoalmente atingido de forma dura, em especial pelo escândalo envolvendo a revelação de documentos confidenciais. Ele perdeu confiança e teve que reconhecer que não tinha sob o seu controle a Cúria, a poderosa administração eclesiástica.

É difícil de se dizer quem será o seu sucessor. Os cardeais se reunirão no conclave mais insólito dos últimos séculos. Em vez de prantear um papa morto, eles poderão arriscar um novo começo, após oito anos de conservadorismo. No entanto, com a nomeação de muitos novos cardeais, o Papa reforçou a facção conservadora no corpo eleitoral.

Bento 16 suscitou muitas críticas com sua política de retorno ao básico, mas tentou preservar o cerne da fé católica. A renúncia ao mandato é um passo ousado, um passo revolucionário. Ele tomou essa liberdade. Ele define um parâmetro. Seus sucessores não mais serão capazes de se apegar ao cargo com unhas e dentes. O pontificado vitalício foi revogado. O Vaticano se abre um pouco, assim, às noções mundanas de soberania e democracia.

Por ocasião da surpreendente escolha do cardeal alemão, oito anos atrás, o tabloide Bild abriu sua primeira página com a exclamação "Nós somos Papa!". Agora, a manchete deve ser: "Desistimos, mas com dignidade!".

Autor: Bernd Riegert (md)
Revisão: Augusto Valente

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