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Mundo

Opinião: Ramadi e o declínio do mundo árabe

Conflito entre sunitas e xiitas não apenas dificulta expulsão do "Estado Islâmico" da cidade iraquiana de Ramadi como também fomenta ocaso de toda a região, opina o jornalista Rainer Sollich, da redação árabe da DW.

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Rainer Sollich, da redação árabe da DW

A queda de Ramadi, no Iraque, é um recuo no combate ao "Estado Islâmico" (EI), admite timidamente o porta-voz do Pentágono Steve Warren. Mas é preciso não superestimar essa perda e reconquistar a cidade, acrescenta. O secretário americano de Estado, John Kerry, igualmente irradia otimismo pragmático, declarando-se muito confiante de que a retomada de Ramadi vá ocorrer já nos próximos dias.

Do ponto de vista da pura estratégia militar, pode até ser que a análise de ambos esteja correta: oito meses de ofensivas aéreas das forças aliadas de fato enfraqueceram sensivelmente o EI. As rendas ilegais dos terroristas diminuíram, eles perderam Kobani e Tikrit e talvez não consigam manter Ramadi por muito tempo.

Mas a que preço? Tudo isso é pago, como sempre, com vidas e destinos humanos. Consta que pelo menos 500 homens e mulheres já tenham morrido nas lutas em Ramadi, mais de 25 mil estão em fuga. E esse número poderá aumentar se o EI voltar a executar, em larga escala, supostos "traidores". Ou se, apoiadas por ataques aéreos dos Estados Unidos, justamente as milícias xiitas tomarem das armas a fim de libertar a maioria sunita da cidade do domínio dos jihadistas.

Numa região onde, há vários anos, a confrontação entre sunitas e xiitas há anos alimenta lutas de poder, sendo inescrupulosamente instrumentalizada por todos os envolvidos para justificar o terror, sangrentas orgias de violência e atos de vingança, isso significa mais do que brincar com fogo: é uma aventura altamente perigosa, de resultado incerto.

É perfeitamente concebível que, num futuro próximo, o EI, como estrutura de domínio territorial, esteja derrotado tanto no Iraque como na Síria. Mas o que vai sobrar desses dois países está totalmente em aberto. Certo é que o EI permanecerá como poderosa milícia e grupo terrorista, até mesmo por saber manipular muito bem os choques entre as diferentes confissões do islã, que hoje dão o tom em grande parte da região, tanto entre as elites políticas quanto para uma parcela alarmantemente ampla dos cidadãos.

Síria, Iraque, Líbia, Iêmen: um Estado árabe após o outro sucumbe diante dos conflitos de poder de fundo interconfessional, étnico ou tribal, sem que haja um fim à vista para tal tendência. Nesses estados, que cada vez mais vão se dissolvendo de dentro para fora, o "Estado Islâmico", a Al Qaeda e outros grupos continuarão espalhando medo e terror, mesmo sem território próprio.

Só que ressentimentos interconfessionais e similares não surgem do nada. Apesar de décadas de convivência pacífica entre os diversos grupos nos diferentes países, há muito esses sentimentos existiam de forma latente, sendo em parte reprimidos, em parte instrumentalizados pelos antigos ditadores.

Em seguida à fracassada "Primavera Árabe", a tendência à instrumentalização se impôs, e em muitas partes determina a política. Combinado aos enormes problemas econômicos em muitos países e ao extremamente elevado desemprego juvenil, criou-se um coquetel perigoso, que ameaça cada vez mais mergulhar a região no caos.

"A juventude é o nosso futuro", gostam de dizer também os políticos árabes. Mas quando essa juventude vagabundeia sem perspectivas pelas ruas, quando espera frustrada pelo próximo barco clandestino em direção à Europa, ou é até mesmo explorada como "carne de canhão" em conflitos armados, é hora de soarem os alarmes.

No mundo árabe, contudo, os alarmes permanecem num silêncio amedrontador, tanto entre os regentes das nações mais pobres – que, como o presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi, tentam, com punho de ferro, conter toda a oposição –, quanto nos potentados dos abastados, mas não menos repressivos estados do Golfo Pérsico.

E, no entanto, do ponto de vista econômico e social, esses países ricos teriam condições relativamente boas para emitir um forte sinal, ao menos político, contra a dissolução e o colapso do mundo árabe.

Seria necessário buscar um forma totalmente nova de cooperação regional, incluindo também estados não árabes, como o Irã e a Turquia. A meta seria romper o círculo vicioso de rivalidade, ódio e violência mútuos, em favor de uma iniciativa conjunta por mais educação, liberdade e prosperidade.

Toda a região sofre com problemas semelhantes, toda ela precisa urgentemente de uma nova concepção. No entanto, justo os dirigentes sunitas no Golfo fracassam completamente diante dessa responsabilidade. Eles ficam só olhando, cada dia mais temerosos, para o grande rival xiita, o Irã – que teoricamente até poderia entrar em arranjos com seu aliado tradicional, os EUA –, ao mesmo tempo em que têm medo do potencial violento das próprias populações.

Em prol da manutenção do próprio poder, os governantes sunitas do Golfo até mesmo fomentam as tensões interconfessionais locais ao bombardear o país mais pobre da Península Arábica, o Iêmen. Não há quem tenha uma visão para o que virá depois, nem no Golfo Pérsico, nem em Ramadi.

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