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Mundo

Opinião: Queda de Morsi foi golpe de Estado e retrocesso para a democracia

Deposição do ex-presidente Morsi acirra a polarização no Egito, que, para não se tornar ingovernável, deve incluir todas as forças políticas no processo de transição, opina o especialista em Oriente Médio Loay Mudhoon.

Não restam dúvidas: o golpe da cúpula militar organizada em torno do ministro da Defesa Abdel Fatah al-Sisi foi sabiamente encenado.

Rodeado pelas mais altas autoridades religiosas do país – o grande ímã da Mesquita de Al-Azhar, Ahmed el-Tayeb, e o papa copta cristão de Alexandria, Tawadros 2º –, pelo político oposicionista e Prêmio Nobel da Paz Mohammed ElBaradei e por representantes do movimento jovem Tamarod, o chefe das Forças Armadas anunciou a anulação da Constituição e a deposição do primeiro presidente democraticamente eleito do Egito, Mohammed Morsi, que obviamente havia fracassado no cargo.

Deutsche Welle Kultur Hintergrund Qantara Loay Mudhoon

Loay Mudhoon

Mas essa habilidosa encenação não mascara o fato de que esse precedente arriscado e de sérias consequências para o Egito é um golpe de Estado contra um presidente legitimado pelas urnas. E não é uma "segunda revolução", como afirmam representantes da oposição anti-Morsi.

A disputa de poder entre os islamistas e os "liberais" não foi decidida com a grande e bem-sucedida mobilização popular do dia 30 de junho, mas com a intervenção do Exército. Hoje sabe-se que a decisão da cúpula militar de dar um golpe contra Morsi já havia sido tomada alguns dias antes dos megaprotestos.

A participação oportunista dos salafistas do Al-Nour, ou "Partido da Luz", na condição de representantes do campo islamista, dessa "cerimônia de destituição" organizada pelos militares não muda nada nisso.

Por isso é uma questão de credibilidade chamar essa violenta tomada de poder pelos militares egípcios pelo nome: ela é um golpe de Estado ilegal e um retrocesso para o processo de democratização do país.

Não há dúvidas de que Morsi demonstrou ser incapaz de governar o maior país árabe. Ele fracassou principalmente na tarefa de unificar uma nação dividida e se tornar presidente de todos os egípcios. Isso era tão mais imprescindível por ele ter sido eleito, havia um ano, com uma maioria apertada.

Além disso, foi desastrosa a evidente incapacidade de seu governo de agir com eficiência contra os urgentes problemas econômicos, que tanto mal causam à população. O governo fez muito pouco contra o alto desemprego, a inflação e a carência de combustíveis.

Mas será que a intervenção militar era realmente necessária para encurtar o mandato de Morsi? Pode-se duvidar disso, se levarmos em conta que a autoridade do ex-presidente havia sido corroída pelos megaprotestos.

Um coisa está clara: a aliança contra Morsi perdeu uma oportunidade histórica de deixar a Irmandade Muçulmana, a principal representantes dos islamistas, fracassar politicamente. Em vez disso, deu aos islamistas, que de fato haviam fracassado, a oportunidade de criar um novo mito.

Depois das experiências na Argélia, em 1992 – quando generais deram um golpe e impediram o triunfo eleitoral da Frente Islâmica de Salvação –, e agora do Cairo, em 2013, os islamistas poderão adotar um discurso de vítima: "sempre que vencemos disputas eleitorais democráticas, somos boicotados ou sofremos golpes".

Também é de se duvidar se a oposição a Morsi, heterogênea e cronicamente dividida, estava em condições de desafiar politicamente os islamistas. Com a sua recusa às ofertas de diálogo feitas pelo ex-presidente e o anúncio de boicote às eleições legislativas no início do ano, a oposição contribuiu para o bloqueio do país. Também a ligação com carrascos do antigo e desacreditado regime de Hosni Mubarak é altamente questionável.

Além disso, se a chamada "aliança anti-Morsi" realmente acredita que os militares simplesmente obedeceram a vontade popular e agiram em nome da democracia, dá mostras de ser ingênua. Antes de mais nada, os generais defenderam os próprios privilégios. O Exército é sabidamente um antro de corrupção e controla no mínimo um quarto da economia egípcia. Além disso, fracassou totalmente na administração do país durante os primeiros dois anos da era pós-Mubarak.

A violenta destituição de Morsi não só aprofunda a polarização do Egito, como também ameaça transformar o país de mais de 80 milhões de habitantes numa nação ingovernável e levar o Estado à beira do colapso.

Para evitar este cenário, todas as forças políticas precisam ser incluídas no novo processo de transição, principalmente a Irmandade Muçulmana. Ela continua sendo a força política mais bem organizada do país. Todas as tentativas de estabelecer uma nova ordem política no Egito pós-Morsi sem a Irmandade Muçulmana têm poucas chances de sucesso.

Por isso, alemães e europeus deveriam pressionar para que cesse a "caça às bruxas" à Irmandade Muçulmana e às suas lideranças e também para que as promessas de uma nova Constituição e eleições, por parte da liderança militar, sejam imediatamente cumpridas.