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Mundo

Opinião: Proibição de "A entrevista" coloca sistema Hollywood em perigo

Decisão da Sony de capitular diante das ameaças de ciberterroristas traz consequências abrangentes para o setor cinematográfico. Tanto morais quanto econômicas, opina Jochen Kürten, da redação de cultura da DW.

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Jochen Kürten, da redação de cultura da DW

Um grupo anônimo de hackers ameaça com um atentado, logo lembrando o 11 de setembro de 2001 para conferir a dramaticidade necessária a sua intimidação. A intenção é impedir a exibição de um filme de Hollywood em que o ditador norte-coreano Kim Jong-un é ridicularizado.

A reação inicial da Sony, responsável pela produção de A entrevista (The interview), foi deixar a cargo dos proprietários das salas de exibição a decisão de programar o filme ou não. Pouco mais tarde, porém, anunciou a suspensão definitiva do lançamento do filme.

A Sony também abriu mão da distribuição como home entertainment (na forma de DVD, blu-ray, video-on-demand), que atualmente tem exatamente o mesmo peso financeiro que o lançamento nos cinemas. Isso significa para ela um prejuízo de 42 milhões de dólares em custos de produção.

Nem mesmo a intervenção e o apelo de personalidades de destaque, para que não capitulasse diante de hackers anônimos, conseguiram demover a Sony. O escritor brasileiro Paulo Coelho, por exemplo, propusera disponibilizar o filme em seu site de internet, oferecendo à multinacional, em contrapartida, a soma simbólica de 100 mil dólares.

Assim, ao que tudo indica, A entrevista, estrelado por James Franco e o codiretor Seth Rogen, passará a constar da história do cinema como uma das grandes obras desconhecidas.

Pouco importa se a produção é uma empolgante sátira política, como afirmam alguns críticos que a assistiram, ou uma chanchada ridícula, típica do setor intermediário de Hollywood, como outros disseram: a reação da Sony é problemática. E traz consequências para o setor cinematográfico.

Pois – diferentemente dos protestos e ameaças, por exemplo, contra livros como Os versos satânicos, de Salman Rushdie, ou as caricaturas de Maomé de um desenhista dinamarquês – o caso atual poderá ter repercussões maiores. Morais, mas também econômicas.

Não é possível proibir um livro, pelo menos não em escala mundial e em caráter definitivo. De um modo ou de outro, os interessados conseguem acesso a manuscritos censurados, textos interditos e publicações retiradas de circulação. Também é quase impossível interditar caricaturas a longo prazo.

A música, também a ópera e o teatro, estão em menor evidência no palco internacional – até por, em geral, estarem mais estreitamente associadas a um determinado espaço linguístico. Arte e cultura tornam-se especialmente vulneráveis quando são operadas em nível global – justamente o caso dos filmes hollywoodianos.

Claro, pode-se debater interminavelmente se os produtos da fábrica de cinema americana sequer são arte. E se o gênero de comédias a que pertence A entrevista – uma mistura bem específica de pastelão e sátira, de autoironia com elementos de chanchada – tem, de longe, alguma a coisa a ver com arte.

Contudo, feitas tais considerações, o sumiço desse filme do mercado cinematográfico global é um incidente digno de nota. Ele tem o potencial para abalar Hollywood em seus alicerces.

Decerto não é de se esperar que imitadores entrem imediatamente em ação e saiam atacando todo filme que tenha algum tipo de perfil crítico – como os hackers anônimos conseguiram fazer, com sucesso, por meio de seu ciberataque. Mas isso poderá acontecer a médio prazo.

As reações de outros profissionais hollywoodianos já apontam em direção à autocensura. O comediante Steve Carell retirou-se de um projeto em que a Coreia do Norte igualmente seria satirizada. No futuro, os grandes estúdios vão pensar duas vezes antes de aprovar um roteiro que ridicularize alguma ditadura no mundo.

Fato é que os ciberterroristas têm uma arma na mão. E não se trata necessariamente da ameaça aos produtores e diretores para que não ultrapassem nenhuma fronteira política. Trata-se de dinheiro: os conglomerados cinematográficos americanos, que atuam em nível global, e a japonesa Sony, que hoje já é parte integrante de Hollywood, dependem incondicionalmente das bilheterias de seus produtos no mercado internacional.

Se terroristas da internet conseguirem intimidar com promessas de atentados, como no caso atual, então eles terão um jogo fácil no futuro. Pois a coisa não se limita a ameaças vazias, e as multinacionais terão sempre que primeiro considerar se o prejuízo coloca em perigo sua própria existência.

Para os padrões hollywoodianos, A entrevista foi, antes, uma produção pequena. Mas se algo tivesse acontecido, o bilionário setor cinematográfico poderia ter sofrido, sobretudo durante o período das festas de fim de ano. Pois estão em jogo muito mais do que 42 milhões de dólares.

O que a situação nos ensina? Por um lado, sobre a enorme vulnerabilidade de conglomerados globais, a qual, no setor da cultura, fica especialmente óbvia no cinema. E – mais uma vez – sobre o lado obscuro da rede e seus ativistas criminosos. A entrevista não será o último caso do gênero.