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Mundo

Opinião: Por um México realmente democrático

Milhares de cidadãos protestam no aniversário da Revolução Mexicana contra a ditadura do crime organizado. Enquanto não houver democracia de verdade, população não pode se calar, opina a jornalista Claudia Herrera-Pahl.

Claudia Herrera Pahl Porträt

Claudia Herrera-Pahl, da redação espanhola da DW

Em 20 de novembro, o México celebra o aniversário da revolução de 1910. Hoje, 104 anos depois de os mexicanos terem levantado armas contra o ditador Porfirio Díaz, a população do país se ergue novamente. Não armada, mas pacificamente e exigindo seus direitos civis; contra a ditadura do crime organizado, da corrupção e da impunidade.

Nesta quinta-feira (20/11), protestam na praça principal da Cidade do México milhares de cidadãos que atravessaram o país por dias a fio, numa marcha nacional. Em todas as províncias, eles informaram sobre o destino dos 43 estudantes de Iguala, no estado de Guerrero, que desapareceram no dia 26 de setembro.

Os resultados das investigações oficiais indicam que, seguindo ordens do ex-prefeito de Iguala, atualmente preso, a polícia entregou os jovens a um grupo local de narcotraficantes, conhecido como Guerreros Unidos. Segundo três membros da organização criminosa, eles foram queimados vivos e suas cinzas, jogadas num rio.

A dor dos pais dos estudantes desaparecidos transformou-se na dor de toda a nação. Quase dois meses depois do sequestro, eles continuam agarrando-se a cada fio de esperança. Eles têm fé nos resultados dos exames de um laboratório na Áustria: que os restos carbonizados, que supostamente eram seus filhos, talvez não o sejam.

Esses restos mortais tornaram-se símbolo de todos aqueles que jazem anônimos nas intermináveis valas comuns que fazem do México um imenso cemitério. Mesmo que se confirme que os estudantes de Iguala estão mortos, os familiares e seu lema – "Eles os levaram com vida, e nós os queremos com vida de volta" – não devem se calar.

Essa monstruosa tragédia precisa tornar-se o inabalável fundamento para a reivindicação da sociedade civil mexicana de que o governo em exercício, não importa de qual partido, tenha, acima de tudo, um dever: defender a vida e o bem estar de todos os cidadãos.

Na história moderna do México, nenhum chefe de Estado renunciou antes de concluir o mandato. Contudo, cresce a pressão sobre o presidente Enrique Peña Nieto. Cada vez mais vozes exigem sua saída. E enquanto ele não tiver a sensibilidade de reconhecer prioridades, essas vozes não se calarão.

Foi preciso mais de duas semanas até Peña Nieto reagir adequadamente às ocorrências em Iguala, recebendo os pais dos desaparecidos. Apesar dos tumultos em todo o país, ele se ateve a seus planos, viajou para a cúpula da Apec na China e para o encontro do G20 na Austrália.

O presidente ignorou que, nesse momento, as prioridades do povo mexicano eram outras: encontrar os desaparecidos, dar nome aos mortos e prender e punir os responsáveis pela violência em Iguala.

E continua parecendo que o governo ainda não entendeu nada: como se não bastasse sua ausência num dos momentos mais críticos da moderna história do país, Peña Nieto acusa "grupos" de quererem desestabilizar o México, de sabotarem projetos governamentais e se esconderem atrás dos protestos violentos das últimas semanas.

À incapacidade de reconhecer prioridades, parece aliar-se agora a incapacidade de perceber realidades: a violência dos manifestantes é a reação à falta de justiça, não apenas nos últimos dois meses, mas nas últimas décadas.

E os nomes dos "grupos" que desestabilizam o país são conhecidos há anos: o cartel de Sinaloa, os Zetas, o cartel do Golfo, o cartel de Beltrán-Leyva, os Cavaleiros Templários, os cartéis de Juárez, de Jalisco, de Tijuana – só para citar os mais importantes de uma longa lista.

O lema "Eles os levaram com vida, e nós os queremos com vida de volta" não deve calar até que o último morto nas valas receba seu nome de volta, e até que o último assassino seja punido por seus atos. A grande passeata do 104º aniversário da Revolução Mexicana é apenas mais um passo na direção certa.

Os familiares de Iguala, a sociedade civil mexicana que desperta, e a opinião pública internacional não podem ceder. Não antes que o governo mexicano finalmente seja o governo democrático que até agora, no palco político internacional, o presidente Peña Nieto vem fingindo ser.

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