Opinião: Perdas financeiras da Siemens são suportáveis | Notícias e análises sobre a economia brasileira e mundial | DW | 16.12.2008
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Economia

Opinião: Perdas financeiras da Siemens são suportáveis

Conglomerado aceitou pagar mais de 1 bilhão de euros em multas para encerrar processos nos EUA e na Alemanha. Mas a Siemens ainda terá que lidar por muitos anos com o capítulo mais negro de sua história centenária.

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A Siemens terá que pagar cerca de 1 bilhão de euros na Alemanha e nos Estados Unidos para encerrar o maior escândalo de corrupção na história alemã. A multa baseia-se em uma série de acordos que o conglomerado fez com a Promotoria Pública de Munique, a Secretaria norte-americana da Justiça e a SEC, a instância reguladora das atividades da Bolsa de Nova York.

Dadas as dimensões de tal escândalo de corrupção, a Siemens escapou apenas com um olho roxo. Afinal, quando se tratava de grandes contratos, subornos eram uma prática cotidiana e nada disso mudou quando estes foram expressamente proibidos por lei na Alemanha e em outros países industrializados, nem quando as ações do consórcio passaram a ser cotadas na bolsa de valores de Nova York.

DW Experte Karl Zawadzky

Karl Zawadzky

Em uma ação de esclarecimento sem precedentes, um batalhão de auditores e advogados controlou cada comprovante, apontando a existência de pagamentos ilegais da ordem de 1,3 bilhão de euros entre 1999 e 2006. Funcionários ou agentes da empresa em diversas partes do mundo usaram caixa dois para assegurar contratos que lhes pareciam lucrativos.

Diante de tais proporções financeiras, as multas aplicadas tanto nos EUA quanto na Alemanha acabaram prejudicando a empresa menos que o esperado inicialmente. Sobretudo no que diz respeito ao acordo fechado com as autoridades norte-americanas, que prevê uma multa de 620 milhões de euros, mas que poderia ter sido muito mais alta.

A Siemens poderia ter sido impedida, por exemplo, de participar de concorrências públicas nos Estados Unidos. É provável que o esclarecimento minucioso a que se submeteu tenha passado uma boa impressão, além do fato de toda a antiga diretoria da empresa ter sido afastada.

A Siemens aprendeu a lição e agora pode alimentar esperanças de lucrar com o gigantesco pacote de incentivo à conjuntura que o futuro presidente dos EUA, Barack Obama, pretende lançar. E, para evitar que a empresa retorne à rotina de corrupção, o ex-ministro alemão das Finanças Theo Waigel, que hoje atua como advogado em Munique, foi nomeado compliance monitor. Nos EUA, tal cargo é comumente instaurado, caso um processo penal seja encerrado com um acordo entre as partes.

Na Alemanha, a Promotoria de Munique aplicou uma multa de 395 milhões de euros, que a Siemens acatou. Com o pagamento das multas e a criação de um sistema de monitoração supervisionado por Waigel, encerra-se nos EUA e na Alemanha o processo por suborno contra a Siemens. As perdas financeiras são suportáveis, uma vez que a Siemens faz excelentes negócios, mesmo sem corrupção, e no fechamento do último ano fiscal 1 bilhão de euros já haviam sido reservados, como precaução para o pagamento de eventuais multas.

Mas o caso não está encerrado. Pois da Promotoria Pública ainda correm processos contra ex-membros da direção e até contra Heinrich von Pierer, ex-presidente da empresa e do conselho de administração, por não cumprimento de seus deveres de supervisão. Além disso, a Siemens pretende pedir indenizações milionárias de ex-presidentes e de outros antigos altos executivos, por não terem impedido a prática de subornos através de um sistema de controles internos. Ou por intencionalmente haver feito vista grossa.

Há ainda um outro motivo por que o caso permanece aberto: clientes do mundo todo pensam entrar com ações de indenização contra a Siemens devido à justificada suposição de que o suborno teria sido contabilizado no valor total dos contratos. E há, por exemplo, países que querem saber quais de seus funcionários públicos se deixaram subornar pela Siemens.

Por mais que os grandes processos na Alemanha e nos EUA tenham chegado a um fim através de acordos e altas multas, a Siemens ainda terá que lidar por muitos anos com o capítulo mais obscuro de sua história centenária. E ainda resta o dano à reputação da empresa, que nenhuma fortuna é capaz de repor. O caso Siemens mostra de maneira exemplar: corrupção não vale a pena.

Karl Zawadzky é editor de economia do programa alemão da DW-RADIO.

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