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Mundo

Opinião: Para premiê turco Erdoğan, fica cada vez mais difícil se salvar

Autodestruição do líder começou com choques na Praça Taksim e avança com escândalo de corrupção. À medida que se debate, conservador Erdoğan perde controle da crise em Ancara, opina chefe da redação turca, Baha Güngör.

Deutsche Welle Türkisch Bahaeddin Güngör

Baha Güngör, chefe da redação turca da DW

Certamente o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdoğan, havia imaginado um balanço de fim de ano bem diferente para o seu governo. Agora, em vez de invejáveis índices de crescimento, uma moeda nacional sólida e uma crescente importância da Turquia como potência regional, a questão não é mais se Erdoğan e seu gabinete vão renunciar, mas sim quando ele vai jogar a toalha.

O líder do religioso-conservador Partido pela Justiça e Desenvolvimento (AKP) se apoia numa confortável maioria absoluta no Parlamento e pôde, desde sua primeira vitória eleitoral em 2002, fazer e desfazer à vontade, praticamente imperturbado e sem qualquer oposição política séria.

Contudo, Erdoğan cometeu o erro comum a tantos autocratas ao se considerar infalível. Ele passou a tolerar cada vez menos as críticas a sua política e mandou prender jornalistas, intelectuais e políticos que defendessem opiniões contrárias. Até mesmo uma grande parcela do antigo comando das Forças Armadas foi condenada a longas penas de prisão, por alegadamente estar preparando um golpe de Estado.

Em vez de evoluir, tornando-se um grande líder político, impulsionado por uma onda de sucesso dentro e fora do país, em meados deste ano ele começou um processo de autodestruição. Eventos recentes – como o choque com as forças democráticas e grupos da sociedade civil devido a um projeto de construção num parque na Praça Taksim, no centro de Istambul; ou a brutalidade inumana do premiê e sua polícia contra os manifestantes – demonstraram que há muito Erdoğan tinha os nervos à flor da pele.

E seus nervos sucumbiram de vez diante do desvelamento de um pântano de corrupção na polícia e na Justiça, sem precedentes nos 90 anos de história da República da Turquia. Quando as inacreditáveis acusações de lavagem de dinheiro, contrabando de ouro, negócios bancários ilegais com o Irã e pagamento de subornos para projetos de obras públicas respingaram em seu círculo pessoal, a reação de Erdoğan foi tentar escapar pela ofensiva.

Entretanto, a substituição de 10 dos 26 postos do gabinete governamental não pôde mais conter os desdobramentos do escândalo. A lira turca sofreu desvalorização recorde em relação ao euro e ao dólar americano. Para completar, a instância mais alta da Justiça administrativa deu o golpe de misericórdia ao declarar nula a decisão de Erdoğan de obrigar policiais e advogados a relatarem sobre as investigações em curso, para assim deixá-los de mãos atadas.

Caso Recep Tayyip Erdoğan se torne vítima da própria prepotência e venha a cair, as alternativas também não são nada auspiciosas para a Turquia. Não existe uma oposição política convincente e de impacto. O adversário mais forte é o pregador Fethullah Gülen, que puniu a tentativa do premiê de controlar as escolas de sua comunidade. Estas são os centros de treinamento ideológico de Gülen, que há mais de 13 anos vive nos Estados Unidos, não ousando retornar a seu país.

Fethullah Gülen é um líder religioso cujas verdadeiras metas são difíceis de definir – como também já foi o caso de Erdoğan. Será que ele almeja um Estado religioso, tendo o Corão como lei fundamental? Ele deseja realmente provar que religião e democracia são capazes de se complementar, e que a Turquia poderia servir de modelo para outros Estados e comunidades islâmicas?

Quem cai num pântano, na natureza, não deve de forma alguma tentar sair dele sozinho. Debater-se só leva a pessoa a afundar ainda mais, e o salvamento fica cada vez mais difícil. O chefe de governo turco já vem se debatendo há muitos meses. Seu resgate – e, portanto, sua permanência no cargo – tornam-se cada vez mais difíceis.

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