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Mundo

Opinião: Ocidente tem que ter rigor e paciência com a Rússia

EUA e UE impuseram sanções a autoridades do governo russo, mas para barrar os avanços de Putin, terão que impor retaliações ainda mais rígidas e se manterem firmes, opina o chefe da redação russa da DW, Ingo Mannteufel.

Em resposta ao ilegítimo referendo na Crimeia, Estados Unidos e União Europeia decidiram bloquear contas bancárias e estabelecer restrições de entrada em seu território a autoridades da Rússia, da Ucrânia e da península no Mar Negro. Os alvos das sanções são acusados de terem desempenhado papel importante no processo em que a Rússia violou agressivamente as leis internacionais e que levou à separação da Crimeia.

Ingo Mannteufel

Ingo Mannteufel é chefe da redação russa da DW

É fora de questão que essas sanções são sobretudo de natureza simbólica. Elas foram a última tentativa do Ocidente de tentar fazer com que a Rússia retrocedesse e de forçar Moscou a dialogar com o governo de Kiev.

As declarações de Putin sobre o reconhecimento da Crimeia como um Estado independente demonstram que o Kremlin deverá prosseguir com sua atual política. O próximo nível na escalada da crise é a anexação da península à Federação Russa. Dessa forma, o processo de integração da Crimeia, dentro da perspectiva de Moscou, estará completo.

Ao Ocidente, não restará mais nada além de impor sanções econômicas e políticas ainda mais rígidas. É verdade que EUA e UE precisam continuar realistas e não podem esperar uma mudança súbita na política de Moscou. Mas seriam severamente negligentes se simplesmente aceitassem um ato ilegal desses por parte da Rússia.

A Rússia não apenas ignorou a Constituição da Ucrânia, mas violou importantes tratados internacionais que mantêm a ordem pacífica na Europa. Se não houver consequências, os russos terão ainda mais tentações: Transnístria, Abkházia, Ossétia do Sul e até Belarus poderão ser os próximos alvos da política expansionista russa.

É verdade que, nos últimos 20 a 25 anos, a política europeia em relação à Rússia nem sempre foi marcada pela inteligência e sensibilidade. Mas isso não deveria ser razão para permitir que o país ocupe e anexe um território vizinho, num ato que, para todos os efeitos práticos, é de guerra – mesmo que a população da Crimeia o aprove. Questionar as fronteiras existentes e a integridade territorial é abrir uma Caixa de Pandora – especialmente para a própria Rússia.

Não se trata mais, portanto, apenas da Crimeia, que a Rússia, aliás, não entregará assim tão fácil. Também não se trata mais apenas do leste da Ucrânia: há muito mais em jogo. Trata-se de toda a ordem pacífica na Europa, e esta deve valer aos europeus muito mais do que um punhado de euros e a sua conta de gás natural, em grande parte, fornecido pela Rússia.

E as cartas que Europa e Estados Unidos têm nas mãos não são tão ruins como muitos acreditam. Não há sinais de que Putin tenha um plano estratégico maior: talvez ele tivesse esperanças de que o Ocidente deixasse barato essa política agressiva e ilegal em meio ao caos da Ucrânia pós-Yanukovytch. Ele provavelmente achava que ouviria apenas algumas críticas do Ocidente.

Talvez Putin ainda acredite que a indignação política se acalme ou que o Ocidente desista de impor sanções mais rígidas. Há anos os russos vivem sob a falsa concepção de que o Ocidente depende do fornecimento de recursos energéticos da Rússia.

No entanto, se o Ocidente se mantiver firme no curso do isolamento internacional, Moscou sentirá os efeitos. Nem mesmo a China apoia o Kremlin em sua política agressiva em relação à Ucrânia. O Kremlin obteve apoio apenas do regime sírio do presidente Bashar al-Assad e da Coreia do Norte, um Estado pária entre a comunidade internacional. Uma eventual exclusão do G8 teria grande impacto na Rússia, assim como a extensão das proibições de viagens e dos bloqueios de contas bancárias.

A economia russa passa por um período de estagnação. A desvalorização do rublo já está reduzindo o consumo e, assim, também o padrão de vida dos russos. Um declínio das relações comerciais com a Europa é inevitável. Limitar as exportações de energia seria suicídio a longo prazo para a Rússia, bem como a anunciada venda das reservas internacionais. Já sanções bem direcionadas por parte do Ocidente deixariam marcas bem claras na Rússia.

Resta esperar que não se chegue a esse ponto. Mas o Ocidente não pode reagir à política atual de Putin de outra forma que não seja com rigor e paciência.

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