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Mundo

Opinião: Obama ignora republicanos e parte para o ataque

Presidente não se deixa intimidar por Congresso dominado pelos republicanos e, em tom desafiador, mostra que seguirá sua agenda política até o fim, opina o correspondente da DW em Washington, Gero Schliess.

Deutsche Welle Gero Schließ

Gero Schliess é correspondente da DW em Washington

Esse não foi o discurso de um perdedor – assim fala um vencedor. "Esqueça os republicanos, não tenha nenhuma consideração, até agora eles não te deram nada, mesmo!" Após tantas derrotas eleitorais, os clamores dos democratas ao seu presidente soavam quase como súplicas.

Obama nem precisava ouvir tudo isso duas vezes. Que ele tivesse acabado de sofrer uma derrota esmagadora nas recentes eleições legislativas e estivesse pela primeira vez se apresentando diante de um Congresso totalmente dominado pelos republicanos – nada disso o intimidou.

Lá falava um Obama revigorado: forte, autoconfiante e pronto para o ataque. Consideração com os republicanos era a última coisa que passava pela sua cabeça. Inflamado, ele os ameaçou com quase meia dúzia de vetos, seja na luta republicana contra a reforma do sistema de saúde, conhecida como Obamacare, seja nas suas exigências por novas sanções ao Irã.

A mensagem de Obama foi clara: os Estados Unidos atravessaram o Vale das Lágrimas e estão novamente no topo. A economia está crescendo a um ritmo recorde, o desemprego está caindo, as cotações em Wall Street estão subindo e há tempos que o preço do petróleo não estava tão baixo. Agora é a vez de a população ser beneficiada. Mas, primeiramente, é o próprio presidente quem sai lucrando. Pois, de repente, Obama voltou a ser popular. As boas notícias catapultaram os seus índices de aprovação nas pesquisas de opinião.

Obama botou o doce na boca da criança. Ele impôs a sua agenda, a – por assim dizer – agenda populista de esquerda do seu partido: mais para a classe média, menos para os ricos. Não importa se impostos, educação ou benefícios sociais – se depender de Obama, as camadas de baixa e média renda devem lucrar, às custas dos abastados e superricos. Obama estava à vontade, dava quase para sentir uma espécie de alívio interior.

Pois este presidente não tem mais muito a perder, principalmente após a derrota nas recentes eleições legislativas. Mas o seu partido tem muito a ganhar, ou seja, a eleição presidencial de 2016. Obama não pode mais concorrer, mas ele quer que o próximo presidente – ou talvez a próxima presidente – seja um democrata que dê prosseguimento ao seu legado político. Em seu discurso, Obama fez tudo o que pôde para preparar o terreno para uma vitória de seu partido em 2016. Ele usou o discurso como trampolim para a campanha eleitoral, que, se ainda não havia começado, agora começou.

Sua iniciativa fiscal é a ponta de lança de sua estratégia. Impostos mais altos sobre os ganhos de capital e heranças – isso afeta o eleitorado tradicional dos republicanos. Alívios fiscais para a classe média e conquistas sociais, como a versão americana do salário família – isso entusiasma a classe média e as camadas de baixa renda, que tradicionalmente votam nos democratas.

Quase ninguém acredita que alguma dessas propostas vire realidade no restante do mandato de Obama. Os republicanos já articularam uma forte resistência. Com isso, o tema central da iminente campanha eleitoral já está definido. E os republicanos terão de explicar por que são contra a redução de impostos.

Nas últimas semanas, fazendo uso de decretos presidenciais, Obama jogou os republicanos na defensiva. O que ele pôs em prática na política migratória, na proteção climática ou, mais recentemente, na aproximação com Cuba supera de longe o pacote de alívios fiscais e benefícios para a classe média. Só que tudo isso não têm muito apelo eleitoral, o que também vale para as suas iniciativas de cibersegurança, liberdade na internet ou o acordo de livre comércio no Pacífico.

Em seu discurso, Obama foi bem-sucedido até mesmo onde costuma ir mal: na política externa. Ele combinou o seu apelo pela continuidade da luta contra os islamistas com uma mensagem de solidariedade à França e todos os países atingidos por atentados terroristas. De fora ficaram suas hesitações na relação com a Síria e com o presidente Vladimir Putin. Mas este "Obama melhorado" poderia transformar até isso numa vitória da democracia moderada.

Nos dois últimos anos de seu mandato, Obama quer tentar mais uma vez. A política interna deverá se tornar interessante, mas isso não significa que ele vai perder de vista os desafios e conflitos externos. O mundo, não importa se adversário ou aliado, pode se preparar para um presidente que seguirá fiel à sua agenda política até o fim.

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