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Mundo

Opinião: O hóspede indesejável da Turquia

Viagem de Bento 16 à Turquia transformou-se num confronto entre islamismo e cristianismo e representa um grande desafio diplomático, opina John Berwick, da DW-TV.

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O propósito de visitas papais para fora da Itália é, geralmente, reunir fiéis católicos e reforçar o vínculo da Igreja local com Roma. Não neste caso. A prioridade de Bento 16 ao viajar à Turquia é encontrar-se com o patriarca ecumênico da Igreja Ortodoxa, Bartolomeu 1º, o líder espiritual dos 200 milhões de cristãos ortodoxos do mundo. Ambos, o papa e o patriarca, estão interessados em cicatrizar a ferida entre Roma e a Igreja Ortodoxa, que se separaram em 1054.

Mas quer o papa goste ou não, esta viagem se transformou num confronto entre islamismo e cristianismo. Depois de enfurecer muçulmanos mundo afora, em setembro, ao citar um imperador bizantino medieval hostil ao islã, Bento 16 é agora visto com profunda desconfiança por muitos turcos. Na véspera de sua chegada, islamistas conservadores arranjaram protestos em massa em Istambul com o slogan: 'não ao papa!'.

A visita dificilmente poderia ter chegado numa hora mais inconveniente para o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. No começo deste mês, o Parlamento Europeu censurou a Turquia por continuar a negar acesso a navios cipriotas a seus portos e por retardar as reformas democráticas. Em outra ocasião, nacionalistas turcos vaiaram Erdogan no funeral do antigo premiê Bulent Ecevit e o acusaram de desejar transformar a Turquia num Estado islâmico.

Há também pressão de outra parte. O papa encorajou expectativas entre cristãos ortodoxos de que irá fortalecer o debate sobre liberdade religiosa na Turquia. Um prelado cristão da Anatólia disse que esta viagem proporcionará uma oportunidade para o papa elucidar "as dificuldades das Igrejas na Turquia".

Ancara está irritada com as alegações de que cristãos na Turquia posam estar em qualquer tipo de 'dificuldade'. Embora a população daquele país seja em torno de 98% muçulmana, é um Estado secular que gosta de se ver como uma democracia européia. Comparada com países como Irã ou Arábia Saudita, a Turquia é genuinamente liberal no tratamento a minorias religiosas. Mas, pelos padrões ocidentais, a liberdade de religião na Turquia é seriamente limitada.

O destino do Seminário Halki é um exemplo característico. Esta é a faculdade onde o clero ortodoxo se formava, até Ancara fechá-lo em 1971. Desde então, o número de clérigos ortodoxos na Turquia raleou. E em anos recentes, o governo turco vem adotando vigorosamente uma política de confiscação de propriedades da Igreja.

Halki se tornou um barômetro da liberdade religiosa. A União Européia está insistindo em que o seminário seja reaberto, até mesmo fazendo disso uma condição para a entrada da Turquia para o bloco.

Ancara argumenta que não pode permitir que Halki opere, sem concordar que islamistas radicais lancem suas próprias escolas, o que poderia desestabilizar o país. Tal argumento pode parecer plausível, mas também corrobora a alegação de discriminação religiosa. Particularmente, desde que o Estado turco favorece e realmente financia a formação do clero muçulmano.

O papa Bento 16 enfrenta um enorme desafio diplomático nesta viagem à Turquia – em parte devido a ele próprio. Ao contrário de muitos de seus antecessores, ele não é um diplomata profissional. É um erudito. E eruditos são notoriamente desajeitados no mundo dos políticos.

Toda sua vida ele se opôs ao que chama de "tirania do relativismo". Quando perguntado se não seria arrogante insistir que o cristianismo é superior a todas as outras religiões, ele uma vez respondeu com uma candura desarmadora: "Mas e se for verdade?". Ele deve ganhar respeito no Ocidente por sua coragem e honestidade, mas é pouco provável que ganhe muitos amigos no mundo muçulmano.

John Berwick é correspondente da DW-TV para assuntos religiosos.

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