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Mundo

Opinião: Merkel comemora jubileu em tempos difíceis

Por dez anos, Angela Merkel vem comandando a política alemã com um estilo que evita confrontos. Mas essa receita parece estar se esgotando, afirma Volker Wagener, jornalista da DW.

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Volker Wagener é jornalista da DW

Neste ano, tudo está sendo diferente para Angela Merkel. Suas políticas firmes, caracterizadas pela ausência de sobressaltos e a habitual lentidão decisória agora fazem parte do passado. E tudo isso ocorre quando a chanceler completa dez anos no poder.

O balanço da década de Merkel havia sido delineado no último verão europeu – pelo menos mentalmente. Dependendo da opinião política de quem enxergava, a visão variava da adoração ou, no pior dos casos, de um reconhecimento cheio de rancor.

Merkel, epônimo de uma época, estava então no auge do seu poder, da sua reputação e da sua autoridade. Os gregos não estavam sozinhos no grupo que poderia fazer algumas observações nada lisonjeiras sobre esse período. O mesmo se aplicava aos social-democratas e aos machos alfa do partido da chanceler. Ela não só comandou a Alemanha, mas também a Europa – pelo menos até o último verão europeu.

Poder esvaziado

Mas aí vieram os refugiados. Centenas de milhares deles elegeram a Alemanha como a terra prometida. Merkel respondeu com declarações do tipo "nós podemos lidar com isso" e "o direito ao asilo não conhece limites".

Mas, desde setembro, a política alemã voltou a ser marcada pelo confronto. Legiões de pessoas bem-intencionadas continuam a apoiar a cultura de "boas-vindas", mas os nervos da sociedade estão começando a ficar à flor da pele.

Ao mesmo tempo, uma rebelião ainda não oficial está em gestação na aliança conservadora de Merkel. Ainda falta um líder. Como a maré mudou! Merkel, que em diversas ocasiões foi apontada por sua postura presidencial como a mulher mais poderosa do mundo e que tinha os líderes da oposição aos seus pés, agora experimenta uma erosão de sua autoridade. Será o fim desse conto de fadas político?

A ascensão de Merkel não teve nada de espetacular. Seus primeiros anos como chanceler foram como um anestésico. Sem rivais naturais, ela liderou uma grande coalizão sem qualquer oposição. Sua reputação não foi solidificada por algo que ela tenha feito, mas como ela fez. Foi um longo período de passividade, em que ela só tomava grandes decisões quando a maioria estava assegurada.

Ela aparou tanto as arestas do seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), até que sigla pudesse ser facilmente confundia com seus rivais social-democratas. Merkel acabou virando a líder não oficial da sociedade de consenso alemã. Resumindo: a política sob Merkel é enfadonha, mas tranquilizadora – é virtualmente fofa.

Até mesmo os esquerdistas e as pessoas alternativas confiam em Merkel. Ela é mestre das formulações vagas e imprecisas. Nada simboliza melhor o estilo político de Merkel do que o seu gesto quase budista de formar um losango com as duas mãos (que se tornou conhecido na Alemanha como "Merkel-Raute"). Ela parece dizer: "Vejam só! Eu tenho sabedoria sobre questões da vida". No entanto, esse alinhamento entre o seu partido e a vontade dos eleitores parece ter se esvaído com a política de acolhimento de refugiados.

O outono da matriarca?

A habilidade de Merkel de esfriar o cenário político se revelou inapropriada quando surgiu o desafio da questão dos refugiados. Até recentemente, os erros de outras pessoas eram os maiores dividendos colhidos por Merkel. Só que, agora, o escorregão foi dela. Sua política de evitar conflitos, que acabou se tornando um receituário, falhou.

Merkel tem agora que liderar – e ela já provou anteriormente de que é capaz. Ela reconheceu quando o apoio político ao seu antigo padrinho político Helmut Kohl estava vacilante e aproveitou a oportunidade para ser escolhida como a chefe do CDU. Na mesma linha, ela aproveitou para rejeitar a energia nuclear após o desastre de Fukushima. Mas nesses episódios, ela tinha pesquisas de opinião – a vontade do povo – ao seu lado.

Agora, é o momento de Merkel empunhar o seu cetro, não só no cenário internacional, mas também na política doméstica – uma área que tem sido relegada quase que exclusivamente ao seu parceiro de coalizão, o SPD. O foco de Merkel tem sido política externa: resgatar o euro, tornar relevante a agenda climática, contrabalancear a Rússia e disciplinar os gregos. Ela soube se tornar indispensável quando se trata de lidar com alguma crise pelo mundo, tornando a Alemanha uma espécie de "grande Suíça", segundo o jornal alemão Die Welt.

Só que esse tempo acabou. Merkel agora precisa decidir como a Alemanha vai avançar na frente doméstica. Mais de um milhão de refugiados em alguns poucos meses não é exatamente uma nota de rodapé no cotidiano da política – ainda mais no longo prazo. Ela tem um plano? Caso não tenha, qualquer cenário é possível: como renúncia, eleições antecipadas... E pensar que Merkel havia indicado que pretendia concorrer à reeleição em 2017. Só que isso foi antes da chegada dos refugiados e da política de boas-vindas.

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