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Mundo

Opinião: Le Pen não tem motivos para comemorar

Nas eleições regionais na França, a FN obteve o melhor resultado do partido num pleito nacional. Entretanto, poder de mobilização da extrema direita populista é limitado, opina Andreas Noll, da DW.

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Andreas Noll é jornalista da Deutsche Welle

Marine Le Pen tem uma tendência refinada ao simbolismo. Não surpreende, portanto, que a líder da extrema direita francesa tenha tentado humilhar os adversários políticos com uma mensagem simples na noite da eleição: "A Frente Nacional é o primeiro partido da França."

Com essa frase, o antigo partido de protesto quis sublinhar sua transformação em partido grande após as eleições europeias do ano passado. Mas na noite da eleição, Le Pen teve que reconhecer, a contragosto, que sua legenda ficara vários pontos percentuais atrás dos conservadores de Nicolas Sarkozy, mais pontos do que pesquisas haviam previsto. Em vez de posar como vencedora, Le Pen não pôde mais do que reivindicar, como de praxe, a renúncia do governo.

A colocação, atrás dos conservadores, é frustrante para uma Frente Nacional que ultimamente vinha se acostumando ao sucesso nas urnas. Mesmo que esteja claro, desde o início, que o partido de extrema direita só ganhará poucos assentos no Parlamento no segundo turno das eleições regionais, no próximo domingo, devido ao sistema de votação.

Se é verdade que a FN sofreu um revés de alto nível, o primeiro-ministro socialista, que se mostrou especialmente engajado nesta campanha, experimentou uma catástrofe. Manuel Valls não conseguiu impedir a queda de seu partido, prevista pelos analistas – ainda que as condições para tal não fossem tão ruins. Algumas semanas atrás, o presidente François Hollande e Valls colheram elogios por sua prudente gestão da crise após a série de ataques terroristas.

No entanto, os eleitores não responderam à tentativa de se tentar transformar a FN no "símbolo do diabo" – o primeiro-ministro falou em uma prova de fogo para a França. Em vez disso, um número assustadoramente grande de cidadãos está convencido de que só o voto em Le Pen pode servir como voto de protesto contra o governo.

Um protesto não só contra a situação catastrófica do mercado de trabalho, mas também contra a imagem desolada oferecida por um Partido Socialista travado por lutas de facções. E um protesto contra uma administração ruim.

Pois, na verdade, o governo tinha anunciado que até 2021 iria abolir os départments, divisões administrativas ainda provenientes da era napoleônica, e transferir suas competências às regiões maiores.

Poderia ter sido um golpe de mestre após décadas de confusões de competências administrativas estatais, com aplausos garantidos de especialistas e do setor econômico. Mas a maioria parlamentar socialista decidiu exatamente o oposto há poucos dias: os departamentos continuam existindo e recebem até ainda mais poderes. Mais uma prova da incapacidade do governo de promover reformas.

Para a líder da FN, tal desempenho do governo é, naturalmente, uma dádiva de Deus, numa eleição em que os grandes temas da extrema direita, como imigração, a política europeia e industrial, nem estavam em jogo. Mesmo assim, o partido se apresentou bem preparado para a votação.

E, ironicamente, esse partido direitista que até pouco tempo atrás tinha pouco significado conseguiu eleger, em mais distritos eleitorais do que os socialistas, a dupla de candidatos, formada por um homem e uma mulher, conforme estipula a atual lei.

E, mesmo assim, apesar da crescente influência a nível local da FN no país e da popularidade da onipresente líder do partido, o alerta do primeiro-ministro para uma possível presidente Le Pen é, a princípio, puro alarmismo.

O potencial de mobilização da FN tem, obviamente, seus limites. E, apesar de toda a raiva reprimida francesa, uma Marine Le Pen no Palácio do Eliseu não seria possível frente ao eleitorado que age sobriamente e que ainda é maioria. Uma ruptura com os valores da república e com seus vizinhos europeus não será desejada nem permitida pela maioria dos eleitores.

Mas Marine Le Pen vai impor seus temas ao centro político ainda mais fortemente nos próximos meses. A campanha atual já mostrou até onde a coisa vai. O líder do UMP, Nicolas Sarkozy, já sugeriu recentemente preferir assimilação à integração, assim como propôs a proibição do véu islâmico nas universidades.

A ascensão da FN deve ter consequências para a eleição presidencial de 2017. Devido ao fato de a passagem de Le Pen ao segundo turno ser provável, e sua derrota nela, algo quase certo, a próxima eleição provavelmente será decidida no primeiro turno. O adversário de segundo turno de Marine Le Pen ganhará, provavelmente, a votação. Para a tradicionalmente fragmentada esquerda francesa isso pode significar uma sentença de morte política.

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