Opinião: Itália evidencia tendência na Europa | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 06.03.2018
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Mundo

Opinião: Itália evidencia tendência na Europa

Metade dos italianos votou em partidos populistas, e a Itália não é o primeiro país da europeu a caminhar nessa direção. Resta saber se os partidos tradicionais conseguirão reverter tal movimento, opina Bernd Riegert.

O terremoto populista na Itália representa uma forte guinada política para o país e para a Europa. O antigo sistema, no qual os social-democratas e o bloco de partidos conservadores liderados por Silvio Berlusconi se revezavam no poder, não existe mais. No lugar dos antigos partidos tradicionais entraram agora novas forças.

As legendas populistas de direita e de esquerda estão se tornando os novos partidos mainstream italianos. Isso já é fato, mesmo que não agrade ao establishment. Na Itália, acontece algo que já se viu e talvez ainda vá se ver em outros países da União Europeia (UE).

Na Grécia, uma coalizão de radicais de esquerda e de direita está à frente do governo. A Hungria é governada por populistas conservadores. Na França, um partido antissistema ganhou de supetão a eleição presidencial e conseguiu conter os populistas de direita, que contam com o apoio de um terço dos eleitores franceses. No entanto, o movimento de Emmanuel Macron – ao contrário de muitos outros – é pró-europeu.

Na Áustria, os populistas de direita passaram a fazer parte do governo. Na Alemanha, eles são o principal partido de oposição no Bundestag, o Parlamento alemão. Em algumas partes do leste do país, a Alternativa para a Alemanha (AfD) é até mesmo a maior força política. No Reino Unido, um movimento nacionalista abalou os partidos tradicionais e impôs o Brexit.

Bernd Riegert

Bernd Riegert é correspondente da DW em Bruxelas

Assim, a Itália não é um caso isolado, mas a continuação de um desenvolvimento contra o qual os partidos estabelecidos na UE ainda não conseguiram se impor. A simples acusação de que os novos rivais seriam "populistas" de esquerda ou de direita já não é mais suficiente. Aparentemente, os eleitores e eleitoras não estão preocupados com isso. Como ficou claro na Itália, eles querem algo novo, uma alternativa.

Esse desejo de transformação é alimentado por uma profunda insatisfação com as realizações do sistema atual. Na Itália, esse desagrado vem fermentando há muito tempo, mas agora chegou a uma erupção política que libera forças antieuropeias, nacionalistas e críticas do establishment.

No dia após a eleição italiana, Matteo Salvini, o vencedor entre os partidos de direita, foi direto ao ponto, explicando que, para ele, "populismo" seria um título honorário, pois seu desejo seria servir à população e escutar a vox populi, a voz do povo.

Cada vez mais eleitores e eleitoras por toda a Europa não têm problemas com as características negativas, falsas promessas e propaganda rasa que os partidos estabelecidos costumam atribuir aos populistas. Eles querem soluções simples para problemas complexos. E quando tais saídas não podem ser encontradas, os culpados sempre são os outros.

Do Reino Unido à Itália, os populistas modernos já aprenderam muito com o populista-mor: o presidente dos EUA, Donald Trump. Não é por acaso que Steve Bannon, ex-estrategista-chefe da Casa Branca e destruidor do establishment, apareceu na véspera da eleição em Roma, apoiando o direitista Salvini.

O populismo não é um fenômeno de direita único na Europa. No Parlamento Europeu, o bem-sucedido Movimento 5 Estrelas, da Itália, se senta na mesma bancada que os nacionalistas do Partido da Independência do Reino Unido, iniciadores do Brexit. O radical de esquerda Syriza, da Grécia, está abrigado na bancada de esquerda do Parlamento Europeu.

Berlusconi, que se reinventou como um populista de direita para a última eleição na Itália, se encontra junto à sua mutável Força Itália na bancada democrata-cristã, ao lado dos partidos tradicionais alemães União Democrata Cristã (CDU) e União Cristã Social (CSU).

Para os apoiadores da unidade europeia e da vizinhança pacífica, grandes preocupações podem advir do fato de que os populistas e os partidos antissistema são quase todos contra a UE, contra a Europa, e são, em parte, nacionalistas. "Primeiro os italianos" foi o slogan de Salvini, emprestado de Donald Trump. "Primeiro a Áustria", diz o Partido da Liberdade (FPÖ), que faz parte do governo em Viena.

Se todos bradam "Eu primeiro!", então o sentimento de "nós" por parte dos europeus vai em breve ser apenas um conceito vazio. O líder da Liga Norte, Salvini, exigiu uma "libertação" da Itália da União Europeia. Isso é tão sem sentido quanto a suposta repressão do Reino Unido por parte de Bruxelas. No entanto, o fato de cada vez mais eleitores e eleitoras acreditarem nesse absurdo é um perigo na Itália.

Os novos partidos, os destruidores do sistema, os populistas criaram nas chamadas redes sociais canais de comunicação próprios e de muito sucesso e, ainda assim, de baixo custo. Em muitas partes da Europa, essa tendência parece passar despercebida pelos partidos estabelecidos. A internet, a bolha de opinião, a ignorância e o sucesso populista estão intimamente relacionados.

Democracias parlamentares podem se tornar, em breve, ditaduras de opinião na internet. O controle está com o Twitter? Com empresas americanas? Nas fazendas de troll russas? Com hackers norte-coreanos?

A Itália mudou para sempre com esta eleição. Qual será o próximo país? Na Alemanha, o Partido Social-Democrata não é mais um partido popular. Quando esse destino atingirá a União CDU/CSU? Ou será que os partidos estabelecidos, que giram em torno do centro político, conseguirão reverter a tendência populista?

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