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Mundo

Opinião: Ideologia ou pragmatismo?

Sétima cúpula da Organização dos Estados Americanos pode marcar uma guinada no panorama político do continente. Será um encontro histórico, diz a chefe do departamento América Latina da DW, Uta Thofern.

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Uta Thofern, chefe do departamento América Latina da DW

Os presidentes dos Estados Unidos, Barack Obama, e de Cuba, Raúl Castro, vão se encontrar no Panamá. Trocarão cumprimentos e conversarão, num ato planejado como ápice da cúpula da Organização dos Estados Americanos (OEA). O momento, por si só, justifica o adjetivo de "histórico".

As relações diplomáticas entre EUA e Cuba foram suspensas em 1961, ano da construção do Muro de Berlim. No ano seguinte, Havana teve a sua participação na OEA suspensa. Que o país comunista, visando o fim do embargo econômico americano, esteja de volta à cúpula sem qualquer concessão, pode ser compreendido como um triunfo da ideologia. Ou como pragmatismo de um presidente americano que ainda precisa lidar com alguns ideólogos em seu próprio Congresso para a execução de seus planos.

Obama reconheceu que os mais de 50 anos de bloqueio diplomático e comercial a Cuba não trouxeram melhorias. Pelo contrário, apenas arranharam gradativamente a imagem dos Estados Unidos na América Latina. Ao mesmo tempo, China e Rússia conquistaram mais influência em vários países da região.

Diante desse cenário, a nova política de aproximação de Obama é lógica, especialmente num momento em que o declínio econômico da Venezuela não pode mais ser negado. O país – que, com um governo populista, se tornou porta-voz dos críticos dos EUA na região – não tem mais como se dar o luxo de manter sua "petrodiplomacia". Como consequência, Cuba, em especial, precisou procurar por novos financiadores – e aqui se fecha o círculo do pragmatismo, algo que não é estranho nem para comunistas de Havana.

No entanto, a Venezuela poderia se desenvolver numa ameaça para a harmonia da cúpula. As recentes

sanções dos EUA contra sete autoridades venezuelanas

não são mais do que uma alfinetada, mas forneceram ao presidente Nicolás Maduro material para campanhas de propaganda – com as quais ele pretende continuar no Panamá.

Especular sobre os motivos – provavelmente domésticos – das sanções de Obama é desnecessário. Fato é que, nos últimos dias, ele se viu forçado a tentativas retóricas de aproximação. O presidente americano precisa de um sucesso no encontro. E as chances são boas, sobretudo pelo fato de a grande maioria dos outros líderes latino-americanos também querer isso (tanto por receio de um conflito com os EUA, quanto para evitarem criticas públicas à opressiva política interna da Venezuela).

O regime cubano aparenta já ser o grande vencedor da cúpula, embora ainda não tenha feito concessões em questões de direitos humanos. Isso preocupa a oposição em Cuba e no exílio e indigna Washington. No entanto, há razões para nutrir a esperança de que, no longo prazo, os moradores da ilha caribenha sejam os vencedores.

A aprovação do acordo final da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE), de Helsinque, completa 40 anos em 2015. Vale relembrar a discussão da época: os opositores do pacto viam nele um sucesso unilateral do Bloco do Leste, que receberia vantagens econômicas em troca de meras promessas na questão dos direitos humanos. Espero que também desta vez a História dê razão ao pragmatismo, pois assim ele derrotaria os ideólogos de ambos os lados.

A opção entre ideologia e pragmatismo será decisiva também para o futuro da OEA. Com a reincorporação de Cuba, ela poderá novamente trabalhar como uma organização autenticamente pan-americana, que zele pelo intercâmbio pacífico em todo o continente, do Alasca à Terra do Fogo.

O eterno (e justificado) rechaço ao papel hegemônico dos EUA sobre o organismo poderá chegar ao fim se tanto o sul quanto o norte da América derem menos peso a suas diferenças ideológicas. Há problemas e desafios suficientes, para os quais os países poderiam encontrar melhor solução juntos e além das fronteiras: desde a criminalidade relacionada com as drogas e o tráficos de pessoas, até uma política energética comum e uma proposta sustentável de exploração de matérias-primas.

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