Opinião: G8 não é o fórum certo para discutir crise mundial de alimentos | Notícias e análises sobre a economia brasileira e mundial | DW | 18.04.2009
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Economia

Opinião: G8 não é o fórum certo para discutir crise mundial de alimentos

Com participação dos países emergentes, ministros da Agricultura dos países do G8 se encontram para tratar somente da política agrícola. Para Helle Jeppesen, o fórum errado para discutir a crise global de alimentos.

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Helle Jeppesen

Helle Jeppesen

Neste domingo e segunda-feira (19 e 20/04), os ministros da Agricultura dos países do G8 (grupo dos sete países industrializados e a Rússia) se encontram pela primeira vez em cúpula própria, na Itália, a fim de elaborar sugestões para a próxima cúpula do G20. O encontro do G8 será acompanhado dos países emergentes do G5 (Brasil, China, México, Índia e África do Sul), como também da Austrália, Egito e Argentina. No entanto, mesmo com espectadores, o encontro do G8 não é o fórum certo para discutir a crise global de alimentos.

É um paradoxo o G8 se encontrar para debater o combate à fome mundial. O G8 é composto dos EUA, Canadá, Rússia, Japão, Reino Unido, França, Alemanha e Itália – todos estes países em que o setor agrícola se baseia em empresas de grande porte e subsídios estatais. Pouco ajuda o fato de o G5 ter sido convidado praticamente como espectador sem direito de voz, quando se trata de elaborar sugestões para a política agrícola global da próxima cúpula do G20.

Primeiramente, é preciso compreender todos os Gs para entender o que acontece em Cison di Valmarino, na província italiana de Treviso. Com um relatório encomendado a priori, "O desafio global de reduzir a emergência da fome", os principais elementos do resultado do encontro do G8 já estão estabelecidos. Pois o documento preparatório encomendado pelos ministros do G8 conhece somente o método antigo e ineficaz para superar a crise: duplicar a produção agrícola até 2050. Tal duplicação se refere, todavia, às estratégias de produção e vendas que, de fato, até agora se provaram extremamente rentáveis para os países do G8, mas não puseram nenhuma comida na mesa de famintos.

O estímulo à produção para o próprio setor agrícola leva repetidamente à falência empresas de pequeno porte no mundo todo. Nos países do G8, a maioria dessas empresas já se tornou vítima da indústria agrícola. O excedente de produção é então exportado como mercadoria barata para países do Terceiro Mundo, onde pequenos agricultores não podem se defender, e onde a agricultura local é destroçada pelos produtos subvencionados dos ricos.

Essa forma de produção agrícola é justamente o que o mundo não precisa, constatou o relatório mundial da agricultura patrocinado pela Unesco, há um ano. Também o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) defende a produção agrícola sustentável como a última salvação, caso queiramos alimentar a população mundial sem destruir o meio ambiente e provocar mudanças climáticas. Hoje, as empresas agrícolas já estão entre os maiores desperdiçadores de água e os maiores agressores do meio ambiente. Um quinto das emissões mundiais de CO2 é causado pelo desmatamento para expansão da área agrícola.

Mas uma produção agrícola sustentável exige uma mudança estrutural, onde saber e sementes não são patenteados por empresas multinacionais. Onde também a produção se faz em harmonia com a natureza e não contra ela, como nas fábricas agrícolas tão maciçamente subvencionadas pelos países do G8. Sustentável quer dizer também que o balanço ambiental deve ser considerado, ao comercializar produtos locais nos mercados internacionais. E sustentabilidade é fazer com que de 30% a 40% da produção mundial não acabe no lixo, como hoje é o caso.

Simplesmente aumentar a produção, como sugerido pelo G8, não irá combater a fome. Alimentos como objetos de especulação com perspectiva de maximização dos lucros não podem ser resposta para a crise global da alimentação. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que 30 bilhões de dólares seriam necessários, anualmente, para superar a crise do setor agrícola e para estimular a agricultura sustentável. Para a crise financeira, já nos encontramos na ordem de grandeza de quatrilhões – e a FAO continuará pedindo em vão somente o dinheiro necessário para extinguir a fome aguda.

Autora: Helle Jeppesen
Revisão: Augusto Valente

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