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Golpe de 64

Opinião: Experiência alemã em lidar com o passado pode servir ao Brasil

Nos 50 anos do golpe, é hora de lembrar que a parceria entre Brasil e Alemanha deveria focar cada vez mais no fortalecimento da democracia e do Estado de Direito, opina Astrid Prange, da redação brasileira da DW.

Fastenblog ohne! Astrid Prange De Oliveira

Astrid Prange, da DW Brasil

"Duas almas vivem, ah, no meu peito": a famosa citação do Fausto de Goethe não descreve apenas a dicotomia humana entre a emoção e a razão – ela se aplica também à relação entre Alemanha e Brasil.

Numa das almas, tristes vozes entoam um lamento aos mortos da ditadura militar brasileira (1964-1985). Na outra, a economia alemã se alegra pelo mercado em expansão do maior país da América Latina.

Até agora, as vozes de concreto e aço sempre ditaram o tom. Mesmo na atual Temporada Alemanha+Brasil – inaugurada pelo presidente alemão, Joachim Gauck, em São Paulo, em maio de 2013, e que se encerra no próximo mês – a direção do projeto coube à Confederação da Indústria Alemã (BDI).

Mas a Alemanha também poderia marcar presença no Brasil para além de sua impressionante potência econômica. Pois é grande, no país, o interesse pelas experiências alemãs com a elaboração do passado de repressão política. Isso ficou claro durante a visita de Gauck há quase um ano.

"Espero que Gauck nos inspire no empenho pela democracia e esclarecimento, e nos mostre possibilidades para o abandono do autoritarismo e da violência", disse, na ocasião, Rosa Maria Cardoso, presidente da Comissão Nacional da Verdade, que investiga os crimes dos Anos de Chumbo.

A Temporada da Alemanha no Brasil, no qual a nação europeia se apresentou moderna e cosmopolita, teria sido uma excelente oportunidade de atender a esse pedido. Porém a solicitada expertise de Gauck na elaboração do passado permaneceu em aberto. E continua em aberto como a Alemanha poderia contribuir concretamente para ajudar a sarar as feridas da ditadura brasileira.

E há na Alemanha arquivos que seguramente poderiam responder a uma ou outra pergunta importante. Por exemplo: até que ponto as empresas alemãs cooperaram com os generais do Brasil? A que arquivos os historiadores brasileiros precisariam ter acesso para provar a perseguição dos críticos do regime também no exílio alemão? O presidente Gauck, na qualidade de antigo encarregado dos arquivos da Stasi – o serviço secreto do governo comunista da Alemanha Oriental –, não poderia desempenhar até mesmo um papel especial nesse contexto?

Ao contrário da China, no emergente Brasil encontra-se ressonância para o comprometimento alemão com os direitos humanos e a democracia. Por isso está na hora de avivar a parceria estratégica, que liga ambos os países, com medidas concretas para o fortalecimento da democracia e do Estado de direito.

Até agora o êxito da parceria tem sido avaliado, em primeira linha, à luz do crescente entrelaçamento econômico entre as duas nações. Contudo, o Estado de Direito é uma pré-condição fundamental para a cooperação econômica bem-sucedida. E as feridas do passado só saram quando são expostas e quebra-se o silêncio.

Em sua amizade que cresceu ao longo da história, Alemanha e Brasil estão ligados por bem mais do que o crescente intercâmbio de mercadorias. Cinquenta anos após o golpe militar, Berlim deveria se lembrar do quanto o Brasil fez ao receber os emigrantes e refugiados da Alemanha. Direitos humanos devem estar em primeiro plano – dos dois lados do Atlântico.

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