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Mundo

Opinião: Em Colônia, um déjà vu para muçulmanas

O que ocorreu na noite de réveillon é com frequência vivenciado por muitas mulheres em países islâmicos. É preciso enfrentar o problema sem medo de ser tachado de racista ou islamofóbico, opina a jornalista Nalan Sipar.

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Nalan Sipar é jornalista da redação turca da DW e vive desde os 15 anos na Alemanha

"Você tem que sair desta sala", disse um imã para mim, minutos antes de realizar o casamento de uma amiga minha e seu futuro marido de acordo com as regras islâmicas. "Não", respondi. "Vou ficar aqui". Esperávamos as testemunhas que haviam ficado presas no trânsito caótico de Istambul. Mas como o imã logo tinha de efetuar a próxima cerimônia, tivemos que providenciar um novo padrinho rapidamente.

Quando perguntei se eu poderia atuar como testemunha, recebi olhares furiosos do religioso. Finalmente, o filho de 18 anos de um vizinho, que nem minha amiga nem seu noivo conheciam, foi convocado para testemunhar o casamento. Mas isso não importa. O importante é que o matrimônio seja testemunhado por um homem. A palavra dele tem valor. A minha não.

O desprezo que vivenciei naquele dia como mulher começa na Turquia já quando se é criança. Enquanto a circuncisão de meninos é festejada como primeiro passo para a idade adulta, uma garota recebe um tapa "simbólico" da mãe em seu primeiro dia de menstruação. A mensagem: "A partir de hoje, você é uma mulher e tem que se comportar!" A mãe age segundo o ditado popular: "Quem não bate na filha, bate no próprio joelho." Em outras palavras, isso significa: os próprios pais são culpados quando uma filha não os respeita e, por esse motivo, acaba lhes causando preocupação.

Esse desprezo às mulheres nas sociedades islâmicas é contrário à igualdade de gêneros, como se encontra proclamada, por exemplo, na Declaração Universal de Direitos Humanos ou na Constituição alemã. Porque a mulher tem primeiro que se submeter ao pai, depois ao marido e durante a sua vida às expectativas de toda uma sociedade.

A consciência das fraquezas femininas definidas pela sociedade e do poder masculino demonstrado desde a infância encoraja muitos homens a fazer com as mulheres o que quiserem. E é justamente no contexto desse cenário, com seus efeitos psicológicos, que na noite de réveillon em Colônia muitos dos homens se tornaram agressores. Não importa de que países eles venham concretamente e quanto tempo e sob qual situação legal eles vivam na Alemanha. É crucial que, futuramente, realizemos discussões sobre essas impressões e dos papéis que dela advêm, para que possamos cortar o problema pela raiz.

E esse problema é conhecido principalmente pelas mulheres que questionam e criticam os papéis que lhe são atribuídos em sociedades muçulmanas. Mulheres para quem as agressões em Colônia não são nenhuma novidade. Porque elas conhecem comportamentos semelhantes já da Praça Taksim em Istambul ou da Praça Tahrir no Cairo. Mulheres que não ficam caladas diante das relações específicas de gênero em suas sociedades.

Para esclarecer: todos têm direito a uma vida pacífica. Não se trata de uma aversão genérica a imigrantes de países islâmicos. É claro que pessoas que fogem de regiões em crise merecem apoio e solidariedade – principalmente famílias e mulheres com filhos. Essas crianças não têm culpa de nada, e é nosso dever humano ajudá-las.

Mas também há problemas óbvios, que não devemos ignorar. E como nunca se viu uma imigração, originada de tão longa distância e em tal dimensão, não há ninguém para consultar sobre seus riscos e efeitos. Temos que tomar cuidado para não dividir o mundo somente em preto e branco. O mundo é complexo, e cada pessoa, diferente.

A noite de réveillon em Colônia deixou claro: mais do que nunca, precisamos ser sinceros uns com os outros. Sem, no entanto, logo nos tacharmos mutuamente de anti-islâmicos ou racistas. Temos que levar a sério as preocupações e ansiedades de todas as pessoas. Isso é absolutamente necessário, se nós não quisermos pôr em risco o legado do iluminismo, de cujos frutos desfrutamos diariamente na Europa.

A jornalista Nalan Sipar foi criada em Istambul e vive desde os 15 anos na Alemanha. Ela é repórter da redação turca da Deutsche Welle.

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