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Mundo

Opinião: eleitores da Nigéria não têm opção

País tem que decidir entre um presidente que só na véspera do pleito enfrenta os terroristas do Boko Haram e um ex-ditador militar. Nigéria perdeu a chance de um novo começo, opina o jornalista Jan-Philipp Scholz, da DW.

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Jan-Philipp Scholz, é correspondente da Deutsche Welle na Nigéria

O escândalo já começou em 7 de fevereiro, quando o governo anunciou que tinha que adiar a eleição presidencial por seis semanas, alegando que os militares ainda tinham que derrotar o Boko Haram, para que em, todo o país, as pessoas pudessem votar regularmente.

Os nigerianos esfregaram os olhos de espanto: será que governo e a liderança do Exército estavam falando dos terroristas que, havia seis anos, abalavam todo o nordeste do país, uma área do tamanho de Portugal, assassinando, saqueando e sequestrando pessoas, obrigando 1,5 milhão de pessoas a fugir? Como eles seriam derrotados agora? Em seis semanas? Que maravilha! Mas então por que isso não aconteceu seis anos atrás?

Os sucessos que o Exército nigeriano e seus aliados militares relataram nas últimas semanas são realmente impressionantes – mesmo que a recente notícia de um novo sequestro em grande escala realizado pelos terroristas na cidade de Damasak, no norte, represente um grande revés. Mesmo assim, relatos de testemunhas e jornalistas da região indicam que o Boko Haram foi expulso de muitas áreas pela ofensiva militar. Esse é um motivo de comemoração, não fosse a questão levantada pelos nigerianos: por que isso não ocorreu há seis anos?

Há alguns dias, o presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, deu a resposta numa entrevista: a Nigéria não esteve mais em guerra, desde sua sangrenta guerra civil na década de 1960. Além disso, o país não produz armas, tem que importá-las. Por isso que tudo demorou um pouco. Essa é uma desculpa difícil de ser superada em termos de descaramento.

A Nigéria, a maior economia da África, com um orçamento de defesa de cerca de cinco bilhões de euros anuais, um país que tem participado nos últimos anos de diversas missões de manutenção da paz, desde o Sudão do Sul até a Libéria – essa Nigéria não consegue em seis anos organizar armas e aliados regionais na luta contra um grupo terrorista brutal que age em seu próprio território? E o momento em que tudo se encaixa, como que por magia, e em que finalmente é possível atuar contra os terroristas é, por acaso, pouco antes da eleição presidencial?

A hipocrisia do presidente é algo inacreditável. E ela é um tapa na cara das famílias de milhares de vítimas do Boko Haram. Mas o mais decisivo é provavelmente o fato de que a elite política da Nigéria percebe somente a cada quatro anos que existe um povo no país, que deve dar a ela pelo menos a aparência de legitimidade democrática.

Nigeria Wahlen Wahlbeobachter

População foi às urnas neste fim de semana na Nigéria

Durante anos, ninguém se interessou pelo destino de milhões de nigerianos no norte do país, que sofriam com o terrorismo na região. Ou, pelo menos, a elite política não se preocupava o suficiente para pensar a sério num modo de resolver o problema. O orçamento militar era saqueado descontroladamente, e os terroristas podiam continuar a matar e estuprar. Um presidente que tem de responder por tal situação, obviamente, perdeu todo o direito de liderança.

Mas, qual é a alternativa? O único candidato da oposição com chances é o ex-ditador militar Muhammadu Buhari. Muitos nigerianos – especialmente no norte predominantemente muçulmano – consideram-no um político incorruptível, conhecido por seu modesto estilo de vida. No entanto, e este é o outro lado da moeda, em seu tempo como governante militar, na década de 1980, ele mandou prender muitos críticos e perseguir adversários políticos.

Os tempos e as circunstâncias mudaram, dizem seus defensores. Argumentam que as instituições democráticas – mais ou menos funcionais – estabelecidas no país limitam o poder do presidente e que, mesmo que ele quisesse, não poderia mais agir como antes. Será que isso basta para nos tranquilizar? Quando Buhari podia, ele também queria. Quando ele teve todo o poder em suas mãos, ele se aproveitou disso impiedosamente. O fato de as circunstâncias serem diferentes agora não é seu mérito. Pelo contrário, enquanto ditador militar, Buhari não queria saber de retorno à democracia.

Diz o ditado popular: cada povo tem os políticos que merece. Se fôssemos aplicar este provérbio no caso Nigéria, isso seria um insulto para os 170 milhões de habitantes desse gigante africano, pessoas que trabalham duro para garantir o sustento próprio e o de suas famílias. Não, a Nigéria não tem os políticos que merece. Pois a escolha que as pessoas têm, é, na verdade, nenhuma: um mentiroso ou um ex-ditador? E, acima de todos, paira a mão invisível dos militares e dos poderosos ogas – homens ricos, influentes e, em sua maioria, idosos, que são considerados como importantes "fazedores de rei" no país. Se os resultados eleitorais não os agradarem, como alguns temem, eles podem usar seu poder para formar um governo de transição do seu agrado. Assim, infelizmente, o resultado já é certo antes de as urnas serem abertas: a Nigéria perdeu a chance de um novo começo.

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