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Economia

Opinião: Desvalorização do petróleo é maldição para uns, dádiva para outros

Queda do preço do produto prejudica países produtores. Mas para nações consumidoras, como a Alemanha, o fenômeno equivale a um verdadeiro pacote de incentivo econômico, opina o jornalista de economia Henrik Böhme.

As velhas regras do jogo já não valem mais. Pelo menos, não no que se refere ao preço do petróleo. Há alguns anos, bastava a explosão de um oleoduto na Nigéria para fazer disparar o preço do "ouro negro". Caso aparecessem outros pontos problemáticos, especialistas já se apressavam em fazer prognósticos de um preço nunca abaixo de 150 dólares o barril e que, provavelmente, logo quebraria a marca dos 200 dólares. Isso aconteceu em 2008: na época, o barril girava em torno de 100 dólares.

Neste 2014, crise é o que não falta. Na verdade, o preço do petróleo deveria ir às alturas, especialmente porque países produtores, como a Rússia, Líbia e Iraque, integram as regiões de crise. Mas isso não acontece. Pelo contrário: desde junho, a linha nos gráficos cai do canto superior esquerdo para o canto inferior direito. E todos se perguntam até onde o preço do petróleo ainda despencará. Ninguém sabe a resposta.

Claro que países compradores de petróleo, como a Alemanha, estão entre os vencedores. A cada ano, são gastos 90 bilhões de dólares com o produto. Não neste ano. Um euro fraco ainda impede uma maior poupança, porque o petróleo tem de ser pago em dólares. Ao mesmo tempo, a taxa de câmbio atual ajuda exportadores alemães e europeus a realizar bons negócios. Somado, isso já dá um belo pacote de incentivo econômico, pois os cidadãos simplesmente podem gastar mais em outras coisas o dinheiro que poupam no abastecimento do carro ou em óleo para calefação.

A coisa muda de figura no caso dos países produtores. Na Rússia, há muito tempo o sinal de alarme está soando – ainda que o Kremlin aja como se tivesse a situação sob controle. Queda do preço do petróleo, combinada com as sanções da UE: um coquetel perigoso para os governantes em Moscou. A Venezuela também é um caso assim: onde a gasolina é quase de graça, onde o orçamento do Estado é quase inteiramente baseado no faturamento com o petróleo, preços baixos são como um pavio no barril de pólvora. Para o presidente Nicolás Maduro, a situação vai ficando delicada.

É claro que sempre aparece alguém com teorias de conspiração. Como, recentemente, o presidente do Irã, Hassan Rohani, que fareja um complô político de certos países contra os interesses do mundo islâmico. Outros acreditam numa campanha dos EUA contra a Rússia para punir Putin. Já outros desconfiam dos sauditas, que estariam tentando destruir a concorrência do setor de fracking(fraturamento hidráulico) dos EUA. Tudo bobagem.

Pois para isso, mercado de petróleo é simplesmente grande demais e tem protagonistas em excesso. A coisa é muito mais básica: desde que os EUA surgiram como novo player, que não só importa grandes quantidades de petróleo, mas também extrai o produto por fracking, há petróleo demais, num mercado simultaneamente marcado pela queda da demanda.

É bem possível que algum protagonista caia fora do mercado por os enormes investimentos não valerem mais a pena, a partir de um determinado preço do petróleo. Isso pode afetar tanto os americanos como os canadenses, que já estão naufragando, com seus custosos projetos de exploração de areias betuminosas. E pode haver instabilidade política: na Venezuela, por exemplo, se o preço da gasolina tiver subir de ridículos dois para cinco centavos de dólar.

Antigamente, quando as velhas regras antigas ainda valiam, o cartel da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) teria se reunido diante de tal situação, e decidido restringir o fornecimento de petróleo para, assim, sustar a queda dos preços. Só que nem os EUA nem a Rússia fazem parte do clube. E os membros da Opep também há muito já não respeitam mais as quotas de produção determinadas por sua organização.

Deste modo, a recente reunião da Opep no final de novembro descambou para a farsa. E não vai ser diferente na próxima vez, em junho de 2015, caso essa entidade inútil continue existindo. Mas, no momento, os consumidores devem ser gratos pela incapacidade de agir da organização. Dificilmente um governo nacional seria capaz de criar um pacote de incentivo assim: 500 bilhões de dólares em poder de compra adicional para o mundo. Que venha o Natal.

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