Opinião: Depois da festa do impeachment, a ressaca | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 12.05.2016
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Brasil

Opinião: Depois da festa do impeachment, a ressaca

Assim que passar a euforia pelo afastamento da presidente Dilma Rousseff, brasileiros perceberão que a crise continua, e que grande parte do Legislativo ainda é corrupta, opina Francis França.

Dilma Rousseff foi afastada da Presidência da República. Pelo menos 100 milhões de brasileiros estão celebrando o desfecho do processo de impeachment. Boa parte deles esperava por este momento desde que Dilma assumiu o segundo mandato. Para 61% dos brasileiros que são favoráveis ao afastamento da presidente, o resultado da votação no Senado foi uma vitória.

Quando a euforia passar, porém, vai sobrar a ressaca. Os brasileiros vão perceber que ainda estão em meio a uma crise econômica com desemprego e inflação na casa dos dois dígitos. E verão que o país ainda precisa urgentemente de uma reforma política, tributária e previdenciária, e que a aprovação dessas reformas segue nas mãos de um Congresso onde 60% dos deputados e senadores têm pendências na Justiça, muitos deles por corrupção.

O país fica agora nas mãos do presidente em exercício, Michel Temer, cuja taxa de rejeição (62%) é quase tão alta quanto a da presidente afastada. Além da impopularidade, Temer terá que enfrentar ainda outro obstáculo: a oposição do PT. O partido da presidente, que tem a terceira maior bancada na Câmara e a segunda maior no Senado, não reconhece a legitimidade do governo Temer e deve barrar o que puder. Nada de novo no front da política brasileira.

Temer terá entre seis meses e – se a presidente for definitivamente cassada, como parece indicar o resultado da votação no Senado – dois anos e sete meses para governar, já que anunciou que não quer se candidatar às eleições de 2018. Mesmo que quisesse, não poderia, pelo menos se for confirmada a decisão do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo que o torna inelegível devido a irregularidades em doações na campanha de 2014. E mesmo que pudesse, dificilmente se elegeria. Pesquisa recente do Datafolha indica que as intenções de voto em Temer não passam dos 2%.

Resumindo, Temer chegará ao poder com a popularidade em baixa e um mandato com prazo de validade. Sua melhor chance de sair como estadista de um processo controverso como este será lutar com todas as forças para que o Congresso aprove as reformas que o país precisa. Seu partido, o PMDB, tem a maior bancada nas duas casas parlamentares. Com isso, ele faria História e daria um tapa de luva no PT, que passou 13 anos no poder sem reformar o sistema político que tanto criticava quando era oposição.

Mas Temer não indicou que fará qualquer reforma. Sugeriu apenas uma guinada liberal na política econômica, com privatizações, estabelecimento de um teto para os gastos do governo e um pente fino nos programas sociais. E prometeu apoio à Operação Lava Jato, procurando dissipar os temores de que a investigação perca força com a saída de Dilma.

Por enquanto, a primeira boa notícia é que o Brasil deve pelo menos sair da completa paralisia política em que se encontrava. A segunda boa notícia é que acabaram as penosas e intermináveis votações sobre o impeachment. Pelo menos até o julgamento.

Francis França é editora-chefe da DW Brasil.

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