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Mundo

Opinião: Conhecendo meu pai, Boris Nemtsov

Há exato um ano, ex-primeiro-ministro e um dos líderes da oposição a Putin era assassinado em Moscou. Zhanna Nemtsova, jornalista da DW, descreve como redescobriu o legado do pai.

Eu costumava sonhar em fazer uma longa entrevista com o meu pai, para falar algumas horas com ele sobre os mais variados assuntos e fazer todas as perguntas que se acumularam ao longo dos anos. Mas por que ter pressa? Parecia haver muito tempo pela frente. Em apenas uma oportunidade eu fiz uma entrevista com ele, para a TV russa RBC. Margaret Thatcher tinha morrido. Na ocasião, eu pedi ao meu então editor-chefe se poderíamos convidar meu pai para falar em um programa dedicado à “Dama de Ferro”. Ele foi um dos poucos russos que se encontrou pessoalmente com ela em diferentes ocasiões.

Naquela época, ele já estava na lista negra da maioria dos canais de TV russos, então fiquei espantada quando abriram uma exceção. Debatemos longamente sobre como eu deveria tratá-lo quando falasse com ele. No final, foi decidido que eu iria apresentá-lo brevemente e que nós usaríamos o pronome pessoal informal.

Nós falamos ao vivo sobre Margaret Thatcher, sobre por que ela escolheu visitar Nijni Novgorod em 1993, e não Moscou ou São Petersburgo; por que e como ela selou a devolução de Hong kong à China; por que ela era contra a integração europeia. Trechos desse programa estão disponíveis no Youtube.

Eu não tive a oportunidade de conhecer muito o meu pai durante a sua vida. É simplesmente assim que as coisas se passam no convívio com pessoas próximas e queridas: não exploramos suas vidas e carreiras em detalhes, suas opiniões e conquistas. Após a sua morte trágica, eu, como muitas outras pessoas, o redescobri. Reli os livros dele, assisti às suas entrevistas, conheci pessoas que o conheceram e trabalharam com ele. E fiz algumas descobertas.

23.02.2016 DW Doku 7649 - Boris Nemzow 3

Boris Nemtsov

Eu sabia, é claro, que meu pai foi um governador excepcional. Ele foi o primeiro a introduzir na Rússia um “pequeno” processo de privatização, que, por exemplo, incluiu a venda de caminhões estatais para empresas privadas; a realização de uma reforma agrária; a construção de estradas, e o lançamento do programa “apartamentos para famílias de militares”.

Mas eu não tinha ideia de que jornais de todo o mundo haviam escrito sobre o governador de Nijni Novgorod, sobre como a região havia virado um imã no mapa da Rússia. O mero fato de que um jornal privado em língua inglesa, o The Nizhny Novgorod Times, era impresso demonstra que muitos estrangeiros passaram pela cidade.

Meu pai não era considerado um grande avaliador de caráter, e admitia isso. Ele costumava brincar de maneira sarcástica que era fácil se passar por um: bastava odiar todo mundo desde o início e, no fim, provar a si mesmo estar certo e assim ganhar a aura de um psicólogo astuto. Esse não era o seu jeito.

Mas ele, entre todas as pessoas, foi o primeiro político a descrever, em 2006, exatamente o que Vladimir Putin pretendia. No livro Confessions of a rebel (Confissões de um rebelde, em tradução livre), publicado em 2007, ele escreveu:

“Existe a necessidade de um novo tipo de líder. Isso reflete uma nova fase no desenvolvimento do país. Qual é a característica da nova Rússia? A nostalgia imperial e o orgulho de si mesma. (...) É uma de letargia, em que as pessoas não desejam liberdade de expressão ou de democracia e nem a ampliação dos seus direitos. Então Putin, com sua evocação de fantasmas sobre um processo doloroso de fim da União Soviética, seus – nem sempre bem-sucedidos – esforços de ocupar um lugar na política internacional e sua intenção, propagandeada aos quatro ventos de restaurar a força da Rússia, chegou na hora certa.”

Essas linhas foram escritas bem antes da guerra na Geórgia, da anexação da Crimeia e das guerras no leste da Ucrânia e na Síria. Naquela época, em 2007, quando a economia ainda estava florescendo, era difícil encontrar alguém que se dispusesse a ouvir meu pai. Ele também era visto de maneira condescendente, como um perdedor dos anos 90 que falhou em encontrar um lugar no “sistema”. Hoje, no entanto, não há dúvida de que ações que atendem desejos imperialistas estão no cerne da política de Putin.

Meu pai fez parte da oposição durante a maior parte da minha vida adulta: mais de dez anos. Na Rússia atual, se opor ao governo é inútil e – como podemos ver – perigoso. Esse é o destino de todos que defendem essa ideia com perseverança. É por isso que a oposição na Rússia é tão marginal. Diferentes pessoas tentaram persuadir meu pai ao longo dos anos de que ele estava errado. Criticar Putin era um erro, diziam, ninguém escuta críticos. No meu trigésimo aniversário, meu editor-chefe na RBC me parabenizou e disse que eu havia escolhido percorrer um caminho melhor que meu pai.

Eu sempre defendi a democracia, e sabia que a Rússia estava seguindo o caminho errado. Mas a anexação da Crimeia fez com que o “caminho melhor” da abstenção do debate público se tornasse impossível para mim. Março de 2014 foi um prenúncio de eventos trágicos, do que estava por vir.

À época, eu disse para minha mãe que aquele seria o último aniversário que conseguiríamos celebrar de maneira normal. Infelizmente, minha premonição se mostrou acertada. A morte do meu pai há exato um ano me forçou a escolher o único caminho legitimo na vida: nunca abdique de suas convicções em questões fundamentais, seja sempre você mesmo. Meu pai, no entanto, nunca vai saber sobre isso.

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