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Mundo

Opinião: Com anistia, Putin se livra de fardos do passado

Longe de representar fraqueza, aparentes gestos de clemência a Khodorkovsky, Pussy Riot e ativistas do Greenpeace, entre outros, apenas coroam um ano extremamente exitoso para o presidente russo, opina Ingo Mannteufel.

Ingo Mannteufel

Ingo Mannteufel

Em sua entrevista coletiva de mais de quatro horas de duração, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, confirmou que as ativistas da banda Pussy Riot seriam beneficiadas pela lei de anistia aprovada apenas alguns dias antes pela Duma.

O mesmo se aplica a pelo menos parte dos acusados pelos protestos de maio de 2012 na praça Bolotnaya, cuja libertação pode, portanto, ocorrer nos próximos dias. O indulto amplo também se aplica aos ativistas do Greenpeace detidos em setembro – entre os quais, a brasileira Ana Paula Maciel –, que ficam, assim, a salvo de uma futura persecução jurídica.

Contudo, só depois da longa e parcialmente maçante coletiva é que Putin comunicou a verdadeira sensação, com que possivelmente encerrará seu ano político: ele anunciou que anistiaria Mikhail Khodorkovsky, ex-presidente da corporação petroleira Yukos, preso há mais de dez anos. Ele haveria apresentado um pedido formal de clemência.

É fato que os advogados de Khodorkovsky não puderam confirmar a existência de tal documento. Ainda assim, com as atuais anistias e o perdão a Khodorkovsky, Putin conseguiu, em curtíssimo prazo, enfraquecer alguns dos pontos centrais de crítica a seu governo nos últimos anos.

Sobretudo no Ocidente, foram severamente censuradas as prisões do ex-magnata oposicionista, das ativistas da banda rock e dos ambientalistas do navio Arctic Sunrise. Essas detenções seriam símbolo de uma Justiça russa da arbitrariedade, politicamente controlada e, assim, também um grande obstáculo a uma melhor cooperação entre a Rússia e o Ocidente.

A iniciativa para aplacar os ânimos do Ocidente deve certamente também ser vista no contexto dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, a se realizarem em fevereiro de 2014. Putin quer valorizar a imagem global de seu país, mostrando-o do melhor ângulo possível. E essas detenções de opositores políticos, há anos criticadas por políticos ocidentais, eram um estorvo a tal intenção.

No entanto, seria um equívoco acreditar que teriam sido a pressão ocidental ou até mesmo debilidade a forçar o presidente a mostrar misericórdia em relação a Khodorkovsky, Pussy Riot ou os ativistas da Greenpeace. A motivação central é outra: neste ano, Putin se vê no ápice de seu poder, em âmbito nacional e internacional, e por isso, a partir de uma posição de força, ele se livra de velhos fardos políticos.

O whistleblower Edward Snowden, a Síria e a Ucrânia: em 2013, estes foram os maiores êxitos de Putin na política externa, de seu próprio ponto de vista. Também internamente, sua hegemonia é mais indiscutível do que nunca. Não só ele mantém sob firme controle o aparato estatal e de poder, os principais protagonistas econômicos e os meios de comunicação: com sua ideologia social nacional-conservadora, ele encontrou um programa político contemplado com a aprovação de uma significativa maioria da sociedade russa.

Isso lhe assegura uma base estável de poder, também do ponto de vista ideológico, mesmo que as benesses sociais do Estado venham a diminuir, em decorrência da estagnação econômica na Rússia. E mais ainda: até mesmo em âmbito internacional, o posicionamento do país como bastião dos valores conservadores e tradicionais é percebido como "softpower russo".

Pois após, anos a fio, o Ocidente ficar recordando à Rússia e a Putin dos valores europeus, o chefe de Estado virou a mesa, com sua interpretação ultraconservadora dos tradicionais valores cristãos. Segundo esta visão, com sua liberalidade e tolerância às minorias sexuais, por exemplo, o Ocidente teria traído os valores cristãos europeus.

Deste modo, pela primeira vez desde o fim da comunista União Soviética, Putin conseguiu desenvolver uma ideologia política especificamente russa, que funciona com a mesma eficácia, tanto interna como externamente. Diante desse pano de fundo, com a anistia e perdão aos antigos adversários e agentes políticos, Putin está extirpando relíquias do passado, agora não mais necessárias.

Os agraciados teriam, de qualquer modo, sido postos em liberdade dentro em breve: Khodorkovsky, por exemplo, em agosto de 2014; Nadejda Tolokonnikova, do Pussy Riot, já em março. O fato de isso agora ocorrer uns poucos meses mais cedo, graças a perdão ou anistia, ainda permite a Putin capitalizar mais pontos positivos, neste tão exitoso para ele ano de 2013. Uma mudança política, no entanto, a coisa não é.

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