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Mundo

Opinião: Cem dias de caos, frustração e contradições

Nunca um governo da UE conseguiu irritar tanta gente e causar tanto dano como Tsipras, Varoufakis e companhia. Uma saída para a crise da Grécia é cada vez mais difícil, opina a correspondente em Bruxelas Barbara Wesel.

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Barbara Wesel é correspondente da DW em Bruxelas

É para chorar ou levar as mãos à cabeça? Para ficar deprimido ou ter um ataque de raiva? O primeiro-ministro Alexis Tsipras e sua trupe de amadores conseguiram, em apenas três meses, asfixiar a frágil planta chamada crescimento econômico sob um manto de incertezas, contradições e falta de rumo.

A Comissão Europeia corrigiu para baixo a previsão de crescimento da Grécia, para mero 0,5%. Com isso, as negociações sobre o uso de um excedente, como Tsipras aventou em sua reunião com a chanceler federal Angela Merkel em março, perdem todo o sentido. Não há mais excedente. E se a tendência se mantiver, o país deslizará de volta para a recessão, afundando ainda mais no vermelho.

Há vários dias, os políticos gregos saíram novamente em viagens internacionais. O ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, discursou mais uma vez em Paris e em Bruxelas e aguardou com expectativa uma cisão entre o Fundo Monetário Internacional (FMI) e os europeus. Tsipras telefonou mais uma vez para a chanceler alemã, e outra delegação negocia com o Banco Central Europeu (BCE) sobre um aumento da ajuda de emergência para os bancos gregos. A água parece estar até o queixo do governo em Atenas. Mas Merkel não pode dizer ao primeiro-ministro grego nada que o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, já não tenha dito: a Grécia deve cumprir seus acordos e implementar reformas amplas. Só depois, o dinheiro vai fluir.

Será que isso ainda não está claro? Nem a Alemanha nem os outros países da zona do euro querem se deixar chantagear pelos gregos. Não há condições especiais para ousadia. E a Grécia não tem direito a um financiamento estatal bancado pela zona do euro. Qualquer um que queira ajuda deve mostrar que está fazendo algo para trazer sua economia de volta aos trilhos. E justamente aí reside a grande decepção. Pois teria sido bom se um governo de esquerda tivesse mostrado ter ideias próprias e novas sobre como um país tão pequeno pode se recuperar economicamente. Turismo ecologicamente correto, pioneirismo na energia solar, uma agricultura voltada para a natureza – muito poderia ser feito a partir dos potenciais naturais da Grécia. Em vez disso vem a velha ladainha socialista, com financiamento estatal e um setor público improdutivo, coisas que já levaram a antiga Alemanha Oriental ao abismo.

E é necessário também uma palavra sobre os representantes gregos. Em Bruxelas, todos ficaram felizes quando foi noticiado que Varoufakis seria substituído por um novo negociador. Afinal, Varoufakis se deu desde o início ares de grande economista, dando lições aos seus colegas e irritando a todos com um show de vaidade e inconstância. Mas a notícia não se confirmou, e a má notícia é que Varoufakis continua no cargo, e vai estar também na próxima reunião do Eurogrupo.

Esse homem é um jogador e leva todos à loucura com sua incoerência. Há pouco tempo, ele disse que o país também pode sobreviver sem novos empréstimos. E isso enquanto um porta-voz do governo ateniense falava de pouca liquidez, Tsipras conversava com Merkel e o vice-primeiro-ministro esmolava no BCE. E foi assim o tempo todo. Ministros de diversas alas do partido se contradiziam uns aos outros e a seu próprio primeiro-ministro no curso de um dia, e, ao mesmo tempo, tentavam botar os negociadores uns contra os outros. Ninguém sabe em quem acreditar. Pois não está claro se Tsipras consegue controlar os marxistas, trotskistas e extremistas de araque de seu partido, o Syriza.

Isso tudo rende assunto de sobra para os jornalistas, e de fato foram escritos muitos artigos divertidos. Por exemplo sobre a última reunião de ministros das Finanças em Riga, quando Varoufakis foi dar um passeio solitário pelas pontes, faltando ao jantar, porque seus colegas lhe disseram estarem fartos dele e de sua turma. Mas, para a Grécia, esse drama pode terminar em tragédia. A maioria dos gregos continua querendo permanecer no euro – e continua apoiando o Syriza.

Eles ainda não entenderam que as duas coisas não combinam. E que não podem se livrar de suas dívidas votando. Eles têm que reformar sua economia de tal forma que possam viver de suas próprias forças. Os gregos também têm de parar de apontar o dedo para os outros, porque nem o FMI nem a zona do euro são os culpados pelo dilema, mas uma longa série de governos gregos irresponsáveis. E Tsipras é mais um deles.

Só que chegou a hora de essa infelicidade acabar. O governo em Atenas pode cair de uma vez na real, ou se retirar voluntariamente do euro, ou convocar novas eleições. Ou todas essas coisas juntas, não importa. Outros cem dias de "mais do mesmo" é a única coisa que não dá.

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