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Mundo

Opinião: Cem anos de Sarajevo é oportunidade para europeus reverem diferenças

Duplo atentado em 1914 foi estopim da Primeira Guerra. Até hoje os europeus não conseguem consenso sobre o papel do autor dos disparos, Gavrilo Princip. Centenário é boa ocasião para mudança, opina Dragoslav Dedovic.

Deutsche Welle Serbisch Dragoslav Dedovic

Dragoslav Dedovic é articulista da redação sérvia da DW

Quando, cem anos atrás, Gavrilo Princip disparou três tiros em Sarajevo, ele não podia ter ideia dos eventos que esses disparos desencadeariam. Pois o atentado marcou o início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), na qual quatro impérios europeus sucumbiram, assim como 15 milhões de pessoas.

Também foi fundado um Estado eslavo meridional em 1918, sob a liderança da Sérvia. Princip e seus cúmplices da organização revolucionária Mlada Bosna (Jovem Bósnia) viam, na criação desse Estado, o cenário de emancipação ideal para todos os eslavos do sul que se encontravam sob dominação estrangeira.

O preço para os sérvios acabou sendo alto demais: mais de um quarto de sua população morreu no grande conflito. Assim, o Estado recém-fundado mais parecia um hospital de guerra e um cemitério do que a almejada terra dos sonhos. O mesmo ocorreu em amplas regiões da Europa: o Velho Continente, que se considerava o berço e o centro da civilização humana, havia se autodestroçado.

Mesmo um século depois, o atentado de Gavrilo Princip segue ocupando muita gente, em Sarajevo, Belgrado, Viena e outras partes da Europa. Os descendentes dos antigos inimigos debatem as causas e a responsabilidade do ocorrido. Muitas vezes esse debate – quando abandona a torre de marfim dos círculos universitários – é vulgarizado pela mídia e povoado com conceitos equivocados.

Um deles é "culpa". Pergunta-se: quem é o culpado pelo início da guerra? Na busca por uma resposta, costuma-se usar o termo "terrorista" – um conceito passível de atribuição arbitrária.

Porém aqueles que classificam o autor do atentado Gavrilo Princip como terrorista não deveriam também definir como terrorista Lee Harvey Oswald, o presumido assassino do presidente americano John F. Kennedy? Ou até mesmo Brutus, um dos assassinos do imperador romano Júlio César?

Eles não o fazem. Por quê? Porque apenas Princip se presta a ser a superfície de projeção ideal para desviar a atenção de outros responsáveis pelos eventos do verão de 1914. É mais fácil depositar a "culpa" por 15 milhões de mortos num rapaz de 19 anos armado de revólver, do que na ganância imperialista das grandes potências nacionais da época.

Nas nações resultantes da ex-Iugoslávia, mas também em toda a Europa, a Primeira Guerra Mundial – mas sobretudo o atentado de Sarajevo – continua sendo interpretada de formas totalmente diversas. Para confirmar isso, bastam alguns cliques na Wikipédia.

Por exemplo, na "enciclopédia livre" em idioma alemão, Gavrilo Princip é definido como "autor de atentado separatista". Os ingleses afirmam que ele foi "um separatista iugoslavo". Os russos mencionam o que não se encontra na página alemã: Princip lutou contra a ocupação de seu país por parte do Império Austro-Húngaro.

A Wikipédia bósnia o apresenta como "nacionalista sérvio". A croata, em contrapartida, acentua antes a proximidade de Princip com os opositores croatas da dupla monarquia. A eslovena reproduz aquilo que provavelmente afirmaria uma página austro-húngara – se existisse: Gavrilo Princip era um membro da organização terrorista Jovem Bósnia.

Por que será que, mesmo no ano de 2014, nós não somos capazes de compor uma lembrança comum? Presumivelmente porque nós, europeus de diferentes nacionalidades, continuamos impregnados por narrativas de cunho nacionalista sobre a própria, mais ou menos justa, luta na "Grande Guerra". É através dessas lentes que nós também o vemos, o assassino de Sarajevo, Gavrilo Princip, seu ato e suas vítimas, o herdeiro do trono austro-húngaro Franz Ferdinand e sua esposa, Sophie.

Por ocasião de um jubileu como este, cada europeu deveria se colocar, hoje, uma questão simples: visões unilaterais só são menos unilaterais quando confirmam nossos próprios clichês, a que nos acostumamos e afeiçoamos?

Cem anos depois, a iniciativa parece bem anacrônica: Gavrilo Princip vai ganhar um monumento em Belgrado. Para consolo dos fãs da extinta dupla monarquia austro-húngara: há um ano a prefeitura de Sarajevo considera a construção de um memorial para o casal Franz Ferdinand e Sophie.

Porém, no ano de 2014, não se trata mais de verdade absoluta, primazia interpretativa, propaganda, culpa ou expiação. A questão é: como nós, enquanto europeus, podemos lidar com nossas diferenças, sem uma recaída no esquema amigo-inimigo.

Neste ano de jubileu, deveríamos ser capazes de um pouco de paciência mútua, sob o lema "unidade na diversidade". Pois a história nos fornece uma lição decisiva: violência não é solução, quer se trate de uma ocupação, uma anexação ou um atentado.

Cem anos após o tiro inicial da primeira grande catástrofe mundial, eu gostaria de pleitear um pouco de leveza ao se tratar do passado. Minha sugestão concreta: no futuro, em todo dia 28 de junho se deveria fechar a rua Gavrilo Princip, em Belgrado. E a banda escocesa Franz Ferdinand poderia tocar seus sucessos. Por exemplo: This fire is out of control ("Esse incêndio está fora de controle").

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