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Mundo

Opinião: Cartas estão sendo reembaralhadas no Oriente Médio

Envolvimento de Estados árabes nos bombardeios aéreos aos jihadistas na Síria é tão necessário quanto arriscado para eles, opina Rainer Sollich, da redação árabe da DW.

Deutsche Welle Rainer Sollich Arabische Redaktion

Rainer Sollich, da redação árabe da DW

A Arábia Saudita está envolvida militarmente, assim como o Catar, a Jordânia, o Bahrain e os Emirados Árabes Unidos. A integração desses cinco Estados árabes aos ataques aéreos dos Estados Unidos ao "Estado Islâmico" (EI) na Síria é uma jogada inteligente do presidente Barack Obama: ao contrário de seu antecessor, George W. Bush, Obama se protege da melhor maneira possível contra a acusação – popular no mundo árabe – de que os EUA travam guerras contra o Islã ou contra os muçulmanos para impor seu poder e seus interesses econômicos.

E, de fato, o envolvimento desses cinco Estados governados por sunitas é um sinal forte: como nunca antes, os regimes locais se posicionam claramente, e em conjunto, contra o terrorismo e as brutalidades supostamente cometidas em nome do islã. Isso é notável porque justamente os Estados do Golfo ostentam a fama de terem, por anos, tolerado ou até mesmo incentivado a ação de grupos jihadistas na guerra civil da Síria com o objetivo de enfraquecer o ditador Bashar al-Assad e seu principal aliado, o Estado xiita do Irã.

Esse Estados reconsideraram suas posições agora? Aparentemente sim – mesmo que isso tenha levado muito tempo. E a razão é óbvia: eles veem o EI cada vez mais como uma ameaça aos seus próprios regimes ultrapassados. Principalmente a Arábia Saudita, que paralelamente à sua parceria estratégica com os EUA cultiva uma visão profundamente fundamentalista do islã, vê-se desafiada pelos jihadistas do EI.

Por isso, ela combate fortemente, no âmbito político, também os concorrentes da Irmandade Muçulmana. O objetivo é claro: o regime da Arábia Saudita não quer perder o seu papel de liderança no mundo árabe para grupos adversários de cunho sunita da mesma forma que não quer perdê-lo para o rival xiita Irã.

Mas, com sua participação militar, os regimes árabes assumem também um alto risco político interno: mesmo que a maioria dos cidadãos nos países árabes tenda a rejeitar os métodos do EI, correntes radicais islâmicas ainda gozam de simpatias por lá. Caso os ataques aéreos causem muitas vítimas entre a população civil, ou caso Assad, deliberadamente excluído da participação militar, venha a se beneficiar da luta contra o terrorismo, um descontentamento perigoso pode se espalhar rapidamente pelos países árabes.

Ambos os casos não podem ser descartados: uma "guerra limpa", sem "efeitos colaterais", especialmente a partir do ar, é difícil também contra o EI. E os grupos de oposição não jihadistas da Síria estão longe de estarem militarmente equipados para enfrentar tanto o regime quanto os jihadistas simultaneamente.

É difícil avaliar as consequências de longo prazo dessa investida. É possível derrotar o EI e grupos ligados à Al Qaeda sem o uso de tropas terrestres? Pouco provável. Também é pouco provável que Iraque e principalmente a Síria possam, depois do derramamento de sangue, transformar-se novamente em Estados nacionais que funcionem e nos quais diferentes grupos étnicos compartilhem o poder de forma justa e vivam em paz. Para isso, falta disposição a todos os lados.

Em contrapartida, os planos para a criação de um Estado curdo em território sírio, iraquiano e possívelmente até turco são mais realistas do que nunca – e poderiam dar origem a novos e sangrentos conflitos na região.

As cartas estão sendo reembaralhadas em todo o Oriente Médio, e o resultado é completamente imprevisível. Só uma coisa é certa: no topo da agenda de todos os regimes e atores envolvidos está apenas a manutenção do próprio poder.

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