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Mundo

Opinião: Cúpula entre EUA e África foi oportunidade perdida

Encontro priorizou interesses econômicos dos americanos, e temas como direitos humanos e democracia foram secundários: um grande erro, opina Daniel Pelz, chefe da redação Inglês para a África da DW.

Deutsche Welle Afrika Englisch Daniel Pelz

Daniel Pelz é chefe da redação Inglês para a África

A reunião de cúpula seguiu os manuais da diplomacia: discursos acolhedores, com frases do tipo "a África é um continente promissor", promessas de investimentos de cerca de 14 bilhões de dólares na economia africana e um presidente Barack Obama sorridente e satisfeito.

Mas, fora os diplomatas, os empresários e Obama, dificilmente alguém ganhará alguma coisa com esse encontro, porque o mote da cúpula foi claro: os interesses econômicos vêm em primeiro lugar. Desenvolvimento, democracia e Estado de Direito foram temas secundários.

Isso já estava claro na lista de convidados. É verdade que o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, não estava entre eles, mas outros chefes de Estado que nem de longe são exemplos de boa liderança estiveram em Washington. Por exemplo o presidente de Uganda, Yoweri Museveni, que pretende governar até o final da vida e, para isso, alterou a Constituição. A oposição é reprimida no país. E devido a uma draconiana lei contra os homossexuais, que acaba de ser revogada pelo Tribunal Constitucional, Museveni recebeu críticas de todo o mundo.

Uhuru Kenyatta, presidente do Quênia, também foi convidado. Ele foi acusado formalmente pelo Tribunal Penal Internacional de cumplicidade nos graves atos de violência ocorridos após as eleições de 2007, quando cerca de mil pessoas foram mortas.

Convites a Kenyatta, Museveni e companhia seriam até compreensíveis se Obama tivesse usado a reunião de cúpula para falar com eles sobre democracia e diretos humanos – em conversas diplomáticas individuais. Mas ele preferiu ficar nos apelos gerais, como "a África precisa de melhor governança", o que alguns dos convidades nem devem ter ouvido.

Na verdade, a cúpula focou no mercado, nos recursos naturais da África, em investimentos e empregos. O fato de, bem depois dos chineses, as empresas americanas começarem a investir em larga escala na África é bom, mas não é a solução para os problemas do continente. É importante que o dinheiro investido não vá parar no bolso das corporações americanas – ou de políticos corruptos –, enquanto os trabalhadores locais recebem salários irrisórios.

Está na hora de os milhões de africanos que ainda vivem na miséria serem beneficiados pelos investimentos. Mas, exatamente nesse aspecto, algumas das promessas de Obama soam estranhas.

Quando Obama se gaba de que, no futuro, a Coca-Cola fornecerá água potável engarrafada aos africanos, trata-se de algo extremamente ingênuo ou de um pensamento empresarial calculista. Isso porque metade dos habitantes da África vive com menos de 1,25 dólar por dia e dificilmente poderá comprar a água da Coca-Cola.

Se o governo americano realmente quisesse fazer algo por essas pessoas, deveria buscar garantir a existência de um sistema de água potável em várias regiões do continente. Só que isso não geraria novos empregos nos Estados Unidos.

Com essa reunião de cúpula ficou definitivamente claro aquele Obama que queria melhorar o mundo deu lugar ao político realista. As visões entusiásticas proferidas por ele durante uma visita a Gana, em 2009, são coisa do passado. Agora, a abordagem dos EUA na África se assemelha à da China: fazer negócios, obter acesso às riquezas minerais do continente e fortalecer o mercado para a venda de produtos próprios. Isso é realpolitik, exatamente como consta no manual. Mas os pobres da África não ganham nada com isso.

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