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Alemanha

Opinião: Ao mudar estilo, Merkel reage às novas circunstâncias

Ao adotar publicamente posições claras contra a islamofobia e repetir que o islã é parte da Alemanha, chanceler abandona sua zona de conforto. Uma reação perspicaz, opina Dagmar Engel, chefe da sucursal de Berlim da DW.

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Dagmar Engel, chefe da sucursal de Berlim da DW

Temerária, combativa, emocional: todas essas são qualidades que não ocorrem de imediato ao se caracterizar aquela que, segundo a revista Forbes, é a "mulher mais poderosa do mundo". De fato, em seu discurso governamental sobre os atentados terroristas em Paris, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, não levantou a voz ou ergueu o punho, nem ficou com os olhos cheios d'água. O que, então, leva tantos comentaristas da Alemanha à avaliação de que a premiê estaria num processo de se reinventar?

Merkel und Hollande in Paris 11.1.2015

Angela Merkel e François Hollande em Paris

Prova nº 1: Esta foto, um instantâneo tirado durante a marcha de luto em Paris. A fria chefe de governo, que sempre evitou a proximidade física de seus colegas, apoia-se no presidente francês, François Hollande, fecha os olhos, aparenta fragilidade, emoção. Segundo se afirma, nada na aparição pública de Merkel é por acaso.

Prova nº 2: Ela se coloca demonstrativamente em defesa dos muçulmanos na Alemanha. A chanceler federal e presidente da conservadora União Democrata Cristã (CDU) retoma expressamente a frase do ex-presidente e correligionário Christian Wulff, segundo o qual hoje o islã é parte da Alemanha.

Isso, de fato, é novo. Ainda em 2010 ela se recusava a concordar com Wulff nesse ponto; agora o citou duas vezes em apenas quatro dias. A primeira foi durante a visita a Berlim do primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoğlu, nesta segunda-feira (12/01). Em seguida choveram críticas, da própria CDU, da irmã União Social Cristã (CSU), do American Jewish Congress, e muitos de seus eleitores tampouco estão convencidos. Apesar disso, ela repetiu a citação completa durante seu discurso no parlamento.

Prova nº 3: Sem rodeios, Merkel adota uma posição clara contra as manifestações anti-islâmicas do movimento Pegida (sigla alemã para "Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente"). Ela escolhe palavras emocionais, fala do ódio e frieza que vê nos corações de alguns. Uma vez que não se sabe até que ponto a maioria silenciosa apoia essas passeatas, também aqui a premiê arrisca perder votos.

Prova em contrário? Diz-se da chefe de governo alemã que ela governa ouvindo as pesquisas de opinião, seguindo o estado de espírito reinante entre a população. Suas aparições públicas, seus discursos, seus gestos dos últimos 14 dias parecem, à primeira vista, falar uma outra linguagem.

Na verdade, porém, Merkel compreende o que começou nas últimas semanas, fora da Chancelaria Federal: a sociedade alemã se despede do consenso aparentemente confortável. Ela se reideologiza, vai às ruas, às dezenas de milhares, toma posições – mesmo que, em parte, grosseiras – e espera o mesmo de seus dirigentes.

Merkel reivindicou uma retomada dos valores democráticos em seu discurso. Democracia, contudo, também significa conflito, travado com argumentos. Para isso, todos, também a chefe de governo, precisam abandonar a própria zona de conforto. O processo começou.

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