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América Latina

Opinião: Ano de mudanças para a América Latina

De Cuba à Argentina, 2015 marca uma reviravolta na região. Mas ainda não está claro se essas guinadas vão corresponder às expectativas, diz chefe da redação América Latina da DW, Uta Thofern.

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Uta Thofern é chefe da redação América Latina da DW

Este foi um ano de esperança para a América Latina, especialmente em comparação com outras regiões do planeta. O degelo entre Cuba e os Estados Unidos, o rápido progresso no processo de paz colombiano e as incríveis reviravoltas na sequência das eleições pacíficas na Argentina, Venezuela e Guatemala: todos esses desdobramentos são absolutamente positivos. Mesmo a série aparentemente interminável de casos de corrupção no Brasil em 2015 tem um outro lado: ela mostra que a Justiça independente está realmente determinada.

No entanto, o fato de algumas análises políticas já saudarem o "fim do socialismo do século 21" ou até mesmo uma "Primavera Latino-Americana" não é só prematuro, mas completamente errado. Quando se aprecia alguém, não se deve lhe desejar nenhum levante primaveril – como também ensina uma olhada a outras partes do mundo. Na América Latina, agora vem o outono, e está bem assim: um pouco de arrefecimento é do que o clima político precisa, urgentemente.

Por exemplo, a Venezuela: o governo populista de esquerda sofreu dura derrota nas eleições legislativas. Já é quase um milagre o pleito ter transcorrido pacificamente e que o presidente ter aceitado o resultado. Mas isso não implica uma verdadeira mudança para melhor: a máquina de propaganda já entrou novamente em funcionamento, e o presidente chavista Nicolás Maduro já tenta restringir o espaço de ação da nova Assembleia Nacional, ainda nem constituída, e conclama à resistência contra os "fascistas" vitoriosos.

Em contrapartida, partes da heterogênea aliança oposicionista já anunciam a queda do chefe de Estado como primeiro objetivo de sua maioria de dois terços. Nesse contexto, é evidente que a oposição deve sua vitória ao catastrófico declínio econômico do país petrolífero. Sem reformas dolorosas e acordos com a ainda ampla (e armada!) ala chavista, a Venezuela não vai sair do abismo.

Da mesma forma é a situação na Argentina. Só que o novo presidente conservador Mauricio Macri vai ter que lidar com uma maioria populista de esquerda no Congresso. Ele também não pode fazer milagres e, no fim, terá de fazer acordos e pôr um fim à miséria econômica.

A liberalização do câmbio e a eliminação de barreiras de exportação são decisões corretas, mas a desvalorização do peso veio rápido. Após essa terapia de choque, a situação vai piorar para muitos argentinos; os programas sociais financiados pelo superciclo das commodities não vão se tornar prosperidade autossustentável de um dia para o outro. Não será em curso de confrontação com uma oposição forte que essa fase poderá ser superada.

Na Guatemala, a eleição do novo presidente Jimmy Morales foi antes um protesto contra a corrupção desenfreada do que fruto de um programa eleitoral convincente por parte do comediante de TV, que após quatro meses ainda não conseguiu formar um gabinete de governo. Por via das dúvidas, o movimento anticorrupção já anunciou novos protestos para janeiro.

E Cuba? Desde o início do degelo das relações diplomáticas entre o país e os EUA, o número de detenções arbitrárias aumenta a cada mês. Não há motivos para esperar uma verdadeira mudança política por parte dos irmãos Castro, e também a guinada comercial vai ser dolorosa. Cada vez mais cubanos abandonam a ilha, enquanto a leis americanas ainda lhes permitem a emigração relativamente pouco problemática. Na América Central, eles provocaram uma crise de refugiados de médio porte.

Na Colômbia é onde se encontram os maiores sinais de esperança, pois o presidente Juan Manuel Santos encontrou o equilíbrio certo entre as concessões aos guerrilheiros das Farc e a repressão pela força. Além disso ele se beneficia de uma conjuntura econômica favorável. Se o cessar-fogo bilateral anunciado para janeiro conseguir se manter, a Colômbia poderia se tornar um exemplo de superação de uma guerra civil que se arrasta há décadas – isso, se não for jogada mais lenha na fogueira da campanha de difamação empreendida pelos opositores do processo de paz, e Santos puder sair vitorioso do referendo final.

Na América Latina há uma série de restrições e condicionantes entre as novas esperanças e sua concretização. A sociedade civil enviou um sinal claro: os eleitores não são somente corajosos, mas também racionais e pacíficos. Agora só faltam paciência e a responsabilidade própria. E a compreensão de que processos políticos não podem ser implementados com a mesma velocidade com que se cria uma hashtag.

Além disso, são necessários políticos que realmente ajam de acordo com o lema "Primeiro o país, depois o partido". Que atuem com prudência em vez de agressividade, com vontade de conciliação em vez da de vitória. Após a superação das ditaduras, as democracias latino-americanas passaram por outro teste: a luta pelo fim da polarização política ainda está em curso. Uma pena que atualmente a Europa esteja dando um exemplo tão ruim, no que tange o valor da capacidade de chegar ao consenso.

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