Opinião: Alemanha necessita um debate público sobre o extremismo de direita | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 14.11.2011
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Alemanha

Opinião: Alemanha necessita um debate público sobre o extremismo de direita

A série de crimes agora revelada deve ser seguida de um amplo debate público sobre a violência de extrema direita na Alemanha, opina a editora-chefe da Deutsche Welle, Ute Schaeffer.

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Ainda não há provas, mas os indícios são alarmantes: presume-se que ao longo de 12 anos um grupo radical de direita de Zwickau, no Leste Alemão, tenha assassinado dez pessoas, na maioria imigrantes, e perpetrado uma dúzia de assaltos a bancos. E ninguém percebeu que, por trás dos atos de violência longamente tratados como fatos isolados, havia método e uma ideologia de ódio de extrema direita.

Como a situação pôde chegar a esse ponto na Alemanha, onde há serviços de informações e polícia bem organizados e equipados? Segundo o Ministério do Interior, não havia evidências conclusivas que apontassem para uma motivação radical de direita.

E por que não havia? Seria porque o trabalho das autoridades se concentrava, em primeira linha, nos suspeitos islâmicos? Porque a ideologia de extrema direita é mais socialmente aceitável? Porque informantes do Departamento Federal de Proteção da Constituição infiltrados na cena de extrema direita queriam ocultar ou impedir tais revelações?

Todas essas questões deverão ser agora esclarecidas – doa a quem doer, de forma rápida e abrangente. Foi o que o governo em Berlim anunciou. Isso é bom. Mas, ainda assim, não basta apenas um esclarecimento dos fatos no nível político.

A série de crimes agora revelada deve ser seguida de um amplo debate público nesse país de imigração chamado Alemanha. Para que aquilo que não deveria ter mais lugar na Alemanha de hoje – a cegueira ideológica e a violência de extrema direita – não mais se espalhe no escuro, na província, nas mesas de taverna e nas associações.

Faz pouco menos de 20 anos que neonazistas atiraram coquetéis molotov na casa de duas famílias turcas na cidade de Mölln. Uma ocorrência que causou alarde em todo o país e também no exterior. Os assassinatos em série agora desvendados demonstram que ideias racistas continuam sendo socialmente aceitáveis.

Em algumas regiões do Leste Alemão, os neonazistas se comportam como "donos do pedaço", declaram sua cidadezinha "zona livre" ou território "nacional". Entoam canções nacional-socialistas nas reuniões de associação e aterrorizam os que pensam diferente, quer estrangeiros, quer esquerdistas.

Eles não são a maioria! Mas apresentam-se como maioria aqueles que estão dispostos a impor suas ideias mesmo através da violência, que podem contar com a conivência e o silêncio dos demais. Esse é o perigo. Agora é preciso opor-lhe resistência através da discussão pública sobre o extremismo de direita.

Apesar de décadas de imigração, padrões de raciocínio e estruturas paralelas se difundiram por nossa sociedade. Eles se desligaram de nossos valores básicos democráticos. Via de regra, os "de fora" são culpados, servem tanto como projeção hostil quanto como alvos de agressão cega. Sobretudo para aqueles que se sentem perdedores do processo social, diante do desemprego ou da falta de perspectivas.

Já era assim na Idade Média: nada mudou esses reflexos reativos, apesar da política de integração, apesar das mesas redondas e de muitos apelos políticos. As investigações ainda vão mostrar se esse era também o caso do grupo de Zwickau agora descoberto. Mas nada disso é desculpa.

No contexto europeu, a Alemanha está um pouco acima da média, no tocante à parcela de estrangeiros em sua sociedade: quase 10% da população é formada por imigrantes que aqui encontraram trabalho e meios de subsistência. Nosso dever é arrancar pela raiz o novo terrorismo radical – não só pelo bem desses 9 milhões de pessoas, como devido à nossa constituição e predisposição democráticas. Senão estaríamos colocando em perigo o futuro, a produtividade econômica e a integridade de nossa sociedade.

Autoria: Ute Schaeffer (av)
Revisão: Alexandre Schossler

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