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Mundo

Opinião: Afinal, o que quer o banco central da China?

Duas desvalorizações seguidas do yuan de uma hora para a outra? O que parece uma reação esquizofrênica à queda das exportações segue, na verdade, uma estratégia de longo prazo, explica o jornalista econômico Rolf Wenkel.

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Rolf Wenkel é jornalista da redação de economia da DW

A política monetária chinesa anda meio enigmática. Há anos que o Banco Popular da China atrelou a moeda do país, o renminbi (conhecido no Ocidente principalmente pela sua unidade, yuan) ao dólar. A taxa de referência era definida diariamente, e só eram permitidas flutuações de 2% para cima ou para baixo.

De repente, o banco central chinês fez a moeda despencar dois dias seguidos: nesta terça-feira (11/08), desvalorizou o yuan em quase 2%, prometendo, ao mesmo tempo, dar aos mercados mais influência sobre o câmbio. Mas isso não impediu a instituição de, nesta quarta-feira, intervir mais uma vez, desvalorizando o yuan em mais 1,6%.

Será que as autoridades monetárias em Pequim estão esquizofrênicas? De um lado, intervêm no câmbio e desvalorizam a moeda; do outro prometem relaxar o atrelamento ao dólar no longo prazo – e isso não porque os secretários do Tesouro dos EUA, sejam eles quem forem, queixam-se há anos de que a China está mantendo sua moeda artificialmente desvalorizada para ganhar vantagem nas exportações. Na verdade, Pequim quer o status de moeda de reserva mundial para o yuan e sabe muito bem que o Fundo Monetário Internacional só incluirá o yuan nesse distinto clube – onde estão euro, dólar, iene e libra – se o câmbio for livre.

Então qual o motivo dessas intervenções? Quase se poderia suspeitar que Pequim retomou velhas práticas: um yuan desvalorizado torna os produtos chineses mais baratos no mercado mundial, e as exportações continuam garantindo milhões e milhões de postos de trabalho na China. É compreensível que o governo não queira abrir mão desses empregos, mesmo que vise, no longo prazo, diminuir a dependência unilateral da economia em relação às exportações.

Mas talvez a chave para compreender os caprichos chineses esteja no método que as autoridades de Pequim pretendem empregar para o cálculo do curso de referência. Ele não deve ser mais determinado exclusivamente pelo banco central, mas basear-se na cotação final do dia anterior.

Se partirmos do princípio de que 1 – a autoridade monetária chinesa está falando sério e 2 – ela continuará permitindo uma faixa de flutuação de 2% para mais ou para menos, então é possível que o yuan se valorize em até 2% por dia. Aí o efeito da medida do banco central chinês – que fez, em dois dias, o yuan alcançar o valor mais baixo em quatro anos – rapidamente desapareceria, e a pressão pela valorização continuaria.

Pequim só pode realmente se dar o luxo de fazer tal coisa se tiver certeza de que o Federal Reserve, o banco central americano, fala sério quando diz que subirá os juros gradualmente ainda a partir deste ano. Isso vai tornar investimentos nos Estados Unidos mais atraentes, retirar capital dos mercados emergentes e valorizar o dólar. Se dólar e yuan se valorizarem simultaneamente, pouca coisa acontecerá na cotação de uma moeda em relação à outra, e os danos colaterais para a indústria de exportação chinesa serão limitados.

Até agora, a China vem tentando com meios intervencionistas evitar a valorização do yuan. Ao mesmo tempo, o país não quer mais ser o bode expiatório para turbulências globais – somente considera que a hora de mudar ainda não chegou.

Todos os programas estatais da China servem a apenas um propósito: formar rapidamente uma classe média grande e com bom poder aquisitivo, reforçar o mercado interno, e passar a fabricar produtos e máquinas de elevado valor para, um dia, livrar-se da dependência da exportação de itens baratos de produção em massa.

Mas não se consegue isso da noite para o dia. Se o câmbio do yuan fosse liberado amanhã, o dólar provavelmente perderia, em relação à moeda chinesa, entre 10% e 40% de seu valor – de um dia para o outro.

Que, com isso, as reservas em dólar da China perdessem boa parte do seu valor seria o menor dos problemas. Bem pior seria a falência imediata de milhares de empresas exportadoras e a consequente perda de emprego de milhões de pessoas. Isso é algo que o governo em Pequim não pode permitir de jeito nenhum se quiser evitar uma agitação social. A China quer e vai valorizar o yuan, mas não aceita que outros determinem dimensão e velocidade dessa valorização – muito menos secretários do Tesouro americanos.

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