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Brasil

"OMC tem que voltar a ser um foro viável de negociações", diz candidato brasileiro

Em entrevista à DW, candidato brasileiro à chefia da Organização Mundial do Comércio, Roberto Azevêdo, diz que é preciso destravar negociações da Rodada Doha para responder à evolução da economia mundial.

O candidato brasileiro a diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, quer fortalecer o sistema multilateral de comércio. Para isso, ele defende que a OMC foque nos temas centrais e não nos periféricos. "(...) o que nós precisamos fazer é voltar a ter um engajamento sério e intenso, tendo como um dos principais focos justamente as áreas que estão hoje sujeitas ao impasse", frisou Azevêdo.

Ele afirmou, também, que o sistema multilateral deveria ser a opção prioritária dos países – em vez de acordos bilaterais fora da OMC – para realizar a liberalização comercial, pois, assim, há a possibilidade de obter resultados mais ambiciosos para os países. Caso seja escolhido para chefiar a organização, ele quer avançar com negociações como a Rodada Doha – que está parada há 12 anos e tem o objetivo de remover barreiras comerciais entre os países.

Deutsche Welle: Por que um brasileiro seria a melhor escolha para chefiar a OMC?

Roberto Azevêdo: A candidatura brasileira teve como propósito fundamental recuperar a credibilidade e fortalecer o sistema multilateral de comércio. Para que isso aconteça, é necessário que haja um desbloqueio das negociações de uma maneira geral. O sistema multilateral não está resumido à Rodada Doha, mas essa paralisia leva a um congestionamento do sistema, que deixa de avançar e, portanto, deixa de responder à evolução do mundo econômico e comercial. A prioridade da minha candidatura é facilitar o avanço das negociações e o desbloqueio dos temas de impasse.

Qual é o caminho para destravar negociações multilaterais como a Rodada Doha?

A primeira coisa a fazer é mudar o enfoque e o processo. É importante que nós deixemos de evitar os temas centrais de impasse da negociação da Rodada Doha, por exemplo. A nossa tendência, nos últimos anos, tem sido a de procurar atuar apenas nos temas mais periféricos. E a minha percepção é de que nós temos que fazer o inverso.

O clima mudou, as circunstâncias econômicas mundiais e o ambiente em Genebra também mudaram, e agora o que nós precisamos fazer é voltar a ter um engajamento sério e intenso justamente nas áreas que estão hoje sujeitas ao impasse.

E aqui temos más e boas notícias. As más notícias são que as distâncias negociadoras continuam muito grandes, acho que insuperáveis se continuarmos abordando esses temas dessa mesma forma. A boa notícia é que são poucas as áreas de impasse tão acentuado. Então, se nós conseguirmos destravar essas poucas áreas, nós conseguiremos avançar a Rodada como um todo, com uma dinâmica mais rápida, mais ágil e abrangente.

Com o fracasso da Rodada Doha, muitos países optaram por fechar acordos bilaterais fora do âmbito da OMC. Na sua opinião, como a organização pode recuperar a confiança dos governos – principalmente das grandes economias – para retomar a negociação multilateral?

Eu acho que o sistema multilateral tem que ser, ou deveria ser, a opção prioritária na área de liberalização comercial, porque é onde nós auferimos os maiores ganhos, em termos de abrangência e número de países participando. Quer dizer, nós teríamos condições de conseguir resultados mais ambiciosos no plano multilateral, porque os benefícios são maiores e, portanto, os compromissos podem ser maiores.

Agora, na medida em que o sistema multilateral siga bloqueado, é natural que essas tentativas de acordos regionais ou áreas de livre comércio ou acordos plurilaterais sejam mais sedutores para os países que querem continuar avançando com a liberalização comercial e seguem buscando mercados adicionais para os seus produtos e seus serviços.

Então, eu não vejo necessariamente como um desdobramento anômalo essas negociações não-multilaterais, mas a OMC tem que voltar a ser um foro viável de negociações para que as atenções voltem ao sistema multilateral e as negociações voltem a ter um grau de ambição compatível com as necessidades de crescimento do mundo atual.

Países emergentes e em desenvolvimento acusam as economias desenvolvidas de subvencionar sua produção agrícola, enquanto os países ricos reclamam que nações emergentes e em desenvolvimento levantam barreiras para favorecer seus produtos. Como pode ser superado o impasse protecionismo versus subvenção?

Eu acho que toda essa discussão leva de novo ao ponto central, que é o da necessidade de que todos demonstrem vontade política e flexibilidade para negociar. Acho que o que nós precisamos reconhecer é que os países sempre estão em ciclos econômicos diferentes, e que para negociar não se deve ficar esperando uma homogeneidade, porque é muito difícil que isso aconteça, ou seja, numa negociação entre quase 160 países, não se pode esperar que todos estejam vivendo o mesmo momento em termos de abertura comercial.

Independente dessa assincronia, é importante que a negociação aconteça. O mais importante é fazer o sistema avançar. E acho que isso está presente na cabeça de todos os atores do sistema.

A sua presença na chefia da OMC significaria mais voz para os países emergentes na organização?

Nenhum diretor geral, até hoje, sentou-se na cadeira de líder da organização dando voz ou representando a visão e a imagem dos seus países de origem. Eu não vou ser o primeiro a mudar essa prática e essa tradição. No momento que eu me sente ali, é a minha voz e é a voz da organização.

O governo brasileiro e a presidente Dilma Rousseff têm feito campanha em seu nome junto a outros países? O senhor recebeu até agora o apoio de quais nações?

Eu prefiro que os próprios países manifestem suas preferências. Então, nesse aspecto, prefiro não me pronunciar. O que eu posso dizer é que, de forma geral, a minha candidatura tem sido muito bem recebida e sendo apoiada de uma forma bastante horizontal, ou seja, tanto países desenvolvidos quanto em desenvolvimento, e nos vários continentes.

Autor: Fernando Caulyt
Revisão: Francis França