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“Olhe para mim de novo” mostra jornada pouco usual pelo sertão

14 de fevereiro de 2012

Documentário de Claudia Priscilla e Kiko Goifman faz estreia internacional em Berlim, mostrando a história do transexual Syllvio Luccio. Em formato de "road movie", o filme é um retrato vibrante da diversidade humana.

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Foto: Berlinale 2012

Um road movie, gênero de filme em que a história se desenvolve durante uma viagem, está associado, geralmente, à transformação. A jornada serve para as personagens se descobrirem, se encontrarem ou se perderem ainda mais. Mas no fim quase sempre há uma mudança.

Olhe para mim de novo, documentário do casal Cláudia Priscila e Kiko Goifman, levou o transexual masculino Syllvio Luccio a uma jornada onde ele é colocado, de maneira não usual, em contato com sua história, preconceitos e com o fundamentalismo religioso num Brasil que aponta para o futuro, mas ao mesmo tempo está marcado por cicatrizes do passado.

Num ambiente rústico, como ele mesmo diz, Syllvio "nasceu mulher, virou lésbica e hoje é um 'cabra' macho nordestino". A força e o esclarecimento da personagem principal sobre sua condição é impressionante, sendo que, após sua viagem, quem sai transformado é o expectador.

Mudança de planos

O filme surgiu quando a diretora Cláudia Priscila começou a se interessar por bioética. Conversando com o marido, eles resolveram adaptar o tema para famílias atuais. Tudo mudou novamente quando conheceram o cearense Syllvio Luccio e perceberam haver uma grande história por trás daquela personagem.

"Tenho um grande prazer em mudar projetos em andamento. Isso faz falta em documentários. Não me interessa provar uma certeza e sim descobrir que há uma realidade muito maior", declarou o diretor à DW Brasil após a estreia na mostra Panorama do Festival de Cinema de Berlim. Goifman já esteve na Berlinale, em 2006, com o filme Atos dos homens.

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Syllvio Lúcio (dir) é protagonista de 'Olhe para mim de novo'Foto: Berlinale 2012

O diretor queria sair da tradição do documentário etnográfico, que enfoca a personagem no ambiente em que ele vive, mas sim cair na estrada e ver a reação.

"Colocar uma pessoa, que mal conhecíamos, para conviver com a nossa equipe durante o período foi um grande risco, que deu muito certo", disse a diretora Claudia Priscilla.

Eles seguiram o roteiro de viagem como a ideia original do filme. "Causa um pequeno estranhamento vermos o transexual em contato com pessoas portadoras de deficiências genéticas", explicam os diretores. Mas também serviu para termos uma visão mais complexa da personagem. "Essas pequenas imperfeições são uma maneira de explorar a fundo não só Syllvio, mas servem também para entendermos as imperfeições da natureza humana", acrescentam.

Grande personagem

A produção do filme encontrou Syllvio Luccio através de sua luta pelos direitos dos transexuais no Nordeste brasileiro. Para ele foi muito fácil colocar sua intimidade em frente às câmeras. "Minha vida é aberta desde o momento que eu me assumi", disse Syllvio em conversa com a DW Brasil.

Kiko Goifman
Kiko Goifman dirigiu o filme ao lado de Claudia Priscilla

"Eu não fui só excluído pela minha família, pela escola, pelos amigos, ou pelo mundo masculino e feminino. Fui excluído do meu direito de ser cidadão brasileiro e ser humano", declarou o protagonista ao público após a sessão do filme.

Mostrar sua história por diversos festivais no Brasil e agora também na Europa é um presente para Syllvio. "Estou muito feliz em estar pela primeira vez aqui na Alemanha e estou impressionado com a beleza das mulheres em Berlim", completou.

Contra o preconceito

Olhe para mim de novo estreou no ano passado no Festival de Gramado. Durante a coletiva de imprensa do filme em Gramado, Syllvio foi criticado por alguns jornalistas, devido a comentários que fez no filme. "Quando fazemos um filme, escolhemos um recorte do que queremos mostrar. Se deixamos uma piada machista no filme foi uma escolha nossa", disse Goifman.

"Existe uma ignorância em pensar que o transexual tem uma visão intelectualizada de seu próprio processo. Quando ele se estabeleceu como homem, o que tomou como referência foi o círculo social e cultural em que ele viveu", completou Claudia.

Os dois diretores ressaltam que a imprensa que criticou a personagem não tem a mesma atitude diante de outras piadas machistas vindas da intelectualidade paulista nos meios de comunicação. "Temos a impressão de que o cinema brasileiro está cada vez mais politicamente correto e careta", lamentou o casal.

Autor: Marco Sanchez
Revisão: Carlos Albuquerque