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Cultura

Olga Grjasnowa e o que carregam as línguas

A mais nova entre os prosadores de língua alemã na Bienal do Rio é uma das mais recentes sensações literárias em seu país. Seu olhar inteligente e irônico sobre conflitos é um exemplo a ser seguido no Brasil.

A jovem romancista Olga Grjasnowa tomou de assalto a cena literária alemã com seu romance de estreia Der Russe ist einer, der Birken liebt (O russo é alguém que ama bétulas, 2012). Seu feito impressiona não apenas por sua idade. Filha de refugiados políticos do Azerbaijão, Grjasnowa tinha já cerca de 12 anos quando chegou à Alemanha e se estabeleceu com a família em Frankfurt.

Após estudar no Instituto Alemão de Literatura em Leipzig, na Universidade de Varsóvia e no renomado Instituto de Literatura Máximo Górki de Moscou, Grjasnowa estreou na prosa alemã com um livro duro, sombrio, que encara de olhos abertos o cenário político mundial.

Sua vida a preparara para isso. Nascida em 1984, a fuga com a família do Azerbaijão na década de 90 aconteceu após testemunhar os conflitos étnicos na guerra civil que ficou conhecida como Guerra de Nagorno-Karabakh. Isso informaria seu trabalho. Assim como Ilija Trojanow usaria suas memórias de infância para criar seus romances picarescos, Grjasnowa alimenta sua prosa com parte do que viveu, mas sua visão esboça-se com contornos trágicos.

Conflitos étnicos onde quer que se olhe

Seu romance, ainda sem tradução no Brasil, conta a história de Mascha, que deixou o Azerbaijão para escapar da guerra civil e fixou residência na Alemanha, onde vive com o parceiro. A morte deste a deixa mais uma vez desterrada, e ela parte para Israel em busca de trabalho, mas encontra resistência e opressão desde a chegada.

A personagem fala árabe mas não hebraico, e isso a coloca uma vez mais do lado de fora da sociedade dominante. Mesmo seus parentes russos, que haviam buscado também uma vida melhor em Israel, acabam detrás das barricadas.

Seu conhecimento do idioma árabe permite maior contato com os palestinos e é como intérprete que ela segue para a Cisjordânia, onde tem que reviver as cenas de conflito étnico, opressão e ódio mútuo entre habitantes do mesmo território que a fizeram fugir do Azerbaijão.

Buchcover - Der Russe ist einer, der Birken liebt von Olga Grjasnowa

'O russo é alguém que ama bétulas', de 2012

A personagem, como a autora, é de família judaica, mas sua compreensão da situação palestina advém de seu conhecimento da língua árabe, tornando-o capaz de acessar a vida dos palestinos de uma maneira que nem seus laços genéticos poderiam ajudá-la a entender os motivos dos israelenses em suas ações. Isso dá à personagem e sua autora um trato inteligente e irônico dos conflitos que se estendem por tantos territórios do globo.

O livro teve recepção crítica entusiasmada na Alemanha, e a autora recebeu encorajamento importante em bolsas de criação artística e prêmios como o que porta o nome de Anna Seghers, uma escritora que trabalhou muito pela internacionalização da cultura alemã. Críticos compararam o trabalho de Grjasnowa ao de outra autora que havia tomado de assalto a literatura alemã uma década antes, Judith Hermann.

O que porta uma língua

A literatura contemporânea alemã tem tratado com frequência da integração entre alemães e imigrantes no país. É interessante notar o quanto isso tem sido discutido, no entanto, pelos próprios imigrantes que aqui aportaram e agora, anos depois e após dominarem a língua de seus novos lares, começam a fazer suas contribuições à sua literatura, como é o caso de dois outros autores alemães presentes na Bienal do Livro do Rio de Janeiro deste ano: Wladimir Kaminer e Ilija Trojanow.

Isso não deixa de estar distante do que vem ocorrendo na literatura brasileira dos últimos anos. Mas, em nosso caso, trata-se de uma situação em que cidadãos do país seguem sendo tratados como imigrantes.

Basta pensar na incrível violência racial no Brasil, a matança de cidadãos negros e cidadãos indígenas, ocorrendo com a impunidade que já nos é conhecida. A situação de imigrantes estrangeiros, como a grande comunidade boliviana em São Paulo e a violência a que é submetida, por exemplo, segue invisível até mesmo na literatura. Mesmo falando línguas que se comunicam, nossa literatura ainda não comunica os conflitos que residem aí.