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"Olga acreditou até o fim que seria libertada"

Roberta Jansen
1 de maio de 2017

Em entrevista à DW Brasil, escritora Sarah Helm, autora de "Ravensbrück", revela que Olga Benário assumiu papel de liderança entre as detentas no campo de concentração. Governo britânico foi responsável por sua prisão.

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Campo de concentração, Ravensbruck
Ravensbruck foi o maior campo de concentração exclusivo para mulheresFoto: DW/P. Kouparanis

A militante alemã Olga Benário Prestes, mulher do líder comunista brasileiro Luís Carlos Prestes, teve seu destino selado pela inteligência britânica por duas vezes, revela o livro Ravensbrück (Editora Record), que acaba de chegar às livrarias do Brasil. Escrito pela jornalista britânica Sarah Helm, o livro resgata a história do campo de concentração exclusivo para mulheres, onde Olga esteve presa.

Documentos obtidos por Sarah Helm revelam que a prisão de Olga [e Prestes] no Brasil, após a Intentona Comunista, só foi possível graças a informações repassadas pelo governo britânico em 1936. Logo veio o pedido de deportação para a Alemanha, já sob o governo de Adolf Hitler – uma grande ameaça para uma jovem comunista e judia.

Olga Benario
Olga Benário foi uma das primeiras mulheres a chegar a RavensbrückFoto: Galerie Olga Benario

Os documentos mostram também que, no mesmo ano, a inteligência britânica avisou que os comunistas ingleses pretendiam interceptar o navio que levava Olga – grávida de sete meses – do Brasil para a Alemanha e libertá-la na Inglaterra. Por conta da informação, a escala britânica da viagem foi cancelada, e a militante seguiu direto para Hamburgo, onde foi entregue nas mãos da Gestapo.

Após sete anos presa, acalentando a ideia de que poderia ser libertada a qualquer momento, Olga foi enviada ao campo de extermínio de Bernburg, onde foi morta na câmera de gás, em 23 de abril de 1942, aos 34 anos de idade, junto com outras 199 prisioneiras.

Em entrevista à DW Brasil, Sarah Helm fala sobre o papel de liderança que Olga teve entre as mulheres no campo de concentração.

DW Brasil: Olga Benário teria chegado a Ravensbrück logo depois de ter sido separada de sua filha recém-nascida, Anita, certo?

Sarah Helm: Sim. Ela ficou um tempo em uma prisão de mulheres da Gestapo em Berlim, onde sua filha Anita nasceu e foi amamentada. Em março de 1938, depois de ser separada da filha, ela foi enviada a Litchenburg, um campo temporário, e, em 1939, para Ravensbrück. Ela estava entre as primeiras mulheres a chegar neste campo.

DW: Pesquisando para o livro, o que você descobriu de novo sobre Olga?

SH: Tive acesso à toda a coleção de cartas e descobri que, olhando para todas elas, temos uma ideia bem melhor da vida e da morte dela nos campos de concentração. Sabemos sobre os protestos que organizava, seu trabalho como chefe do bloco judeu. Era uma mulher forte, que se sobressaía, as outras prisioneiras ficavam muito impressionadas com ela.

DW: Qual era o trabalho de Olga em Ravensbrück?

SH: Ela era responsável por um dos blocos de prisioneiras, o das judias, o que significa que tinha que obedecer aos nazistas e manter a ordem no bloco. Para ela, foi uma tarefa difícil. Mas, por outro lado, ela também podia ajudar as prisioneiras. Ela conseguia fazer contato com outras prisioneiras comunistas e foi criando uma rede de resistência.

 

Campo de concentração em Ravensbrück
O maior campo de concentração para mulheres da Alemanha foi construído em 1939Foto: picture-alliance/dpa/B. Settnik

DW: Em que consistia exatamente essa rede?

SH: Ela fazia muitas coisas pelas presas. Lia poemas, fazia exercícios físicos, organizou, com as comunistas, um grupo de leitura de Tolstoi [como o livro era banido pelo regime, os nazistas o usavam como papel higiênico, o que logo chamou a atenção das presas, que o resgataram]. Esse grupo de leitura foi descoberto certa vez, o que rendeu punições severas, com várias presas indo para a solitária e passando fome por semanas.

DW: O que mais te chamou a atenção na história de Olga?

SH: Ela realmente acreditou, quase até o fim, que conseguiria sair, ser libertada. Havia uma lei que garantia a liberdade se a pessoa fosse casada com alguém natural de um país estrangeiro, o que era o caso dela. E havia uma campanha mundial liderada pela mãe de Luís Carlos Prestes pedindo por sua libertação. Mas a guerra eclodiu antes que elas conseguissem o visto.

DW: Você menciona que a inteligência britânica selou o destino de Olga por duas vezes. Como foi?

SH: A inteligência britânica estava monitorando um comunista alemão, Arthur Ewert, que fazia parte do grupo de Prestes. Foi por meio desse monitoramento que eles descobriram o paradeiro de Prestes e Olga [que estavam na clandestinidade após a Intentona Comunista no Brasil] e o informaram para o governo brasileiro. Mais tarde, depois que Olga já tinha sido presa e estava sendo levada para a Alemanha, foi novamente a inteligência britânica quem interceptou um comunicado entre o Partido Comunista Soviético e o Partido Comunista Britânico, pedindo que Olga fosse resgatada durante a escala do navio em Southampton. Com a informação, o navio acabou seguindo direto para a Alemanha [até então se acreditava que a grande ameaça ao mundo era o comunismo, não o nazismo]. Então, sim, podemos dizer que, de certa forma, o governo britânico foi responsável pelo destino de Olga.