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Cultura

O reduto dos novos dramaturgos

3º Festival Internacional de Nova Dramaturgia (F.I.N.D.), realizado pela Schaubühne, em Berlim, mostrou como os jovens dramaturgos alemães que já viraram mainstream criticam a sociedade de consumo midiatizada.

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Tipos da nova geração como personagens

Numa plantação de haxixe, em Brandemburgo, às portas de Berlim, uma comuna de drop-outs tranca o mundo lá fora para cultivar uma sociedade paralela. A comunicação entre estes pós-hippies, de certa forma uma paródia do discurso meia-oito, ameaça no entanto se dissolver no código restrito de uma conversa de chapados.

"Peter: Será que a Lucie vai trazer aquela Pâmela?

Durex: Vá saber.

Jo: Claro que sim.

Durex: Ah, eu sei de quem cê tá falando. Como era mesmo o nome dela?

Peter: Ela não chamava Pam?

Durex: Não mesmo, Pam é que ela não chamava. Nem fodendo.

Peter: Como ela chamava então?

Durex: Não faço a mínima idéia. ( para Jo) Cê não sabe como ela chama?

( Silêncio)

Jo: O que que cê perguntou mesmo?

Durex: Como ela chamava.

Jo: Como quem chamava o quê?

Durex: A Pâmela, aquela Pâmela, qual era o nome dela, porra?

Peter: Aquela gostosa.

Jo: Ela tá vindo também.

Durex: Como ela chamava mesmo?

Jo: Sei lá como ela chamava, mas ela também tá vindo."

Esta nova peça de David Gieselmann (1972), Plantage (Plantação), apresentada numa leitura cênica do 3º Festival Internacional de Nova Dramaturgia (F.I.N.D.), na Schaubühne, em Berlim, reitera um motivo obsessivo da nova dramaturgia alemã: os novos biótopos da sociedade de consumo informatizada, midiotas com um horizonte pequeno-burguês, autistas numa linguagem tautológica que nega o pretenso potencial de comunicação das novas mídias.

As personagens são geralmente produtos das tecnologias de informação, como o inventor Jo, que trai os ideais de comuna, tornando-se milionário com as vendas de seu software, e encampa a plantação, expulsando os amigos; ou a DJ Lucie, financiadora da comuna, que vai à falência depois de ter passado a moda do seu único hit internacional; ou o boxeador decadente, inicialmente celebrado pela mídia e agora relegado ao esquecimento, que tenta tomar os plantadores de haxixe como reféns.

Em Electronic City, peça apresentada por Falk Richter (1969) em F.I.N.D., é só numa cela de cadeia que o casal Tom e Joy consegue viver seu amor transcontinental: ele, jet setter sempre em trânsito, de um hotel para o outro, entre os aeroportos de Berlim, Frankfurt, Nova York, Hong Kong, Cingapura, Sydney e Los Angeles, que elegera o canal de filmes pornográficos nos quartos de hotel como seu único referencial fixo; e ela, que abandonara os estudos para trabalhar de caixa de um prêt-à-manger internacional, nos mais diversos aeroportos do mundo, tornando sua vida dependente do funcionamento de um scanner. Em Gott ist ein DJ (Deus é um DJ, 1999), Richter já tinha mostrado o autismo de um casal que se expõe ao experimento televisivo de ser filmado 24 horas por dia por câmeras de rede.

A crítica ao consumo na nova dramaturgia alemã se revela na representação de uma sociedade autofágica, inerte e condenada a reproduzir ad infinitum seus círculos viciosos. Na peça Das Frühstück (O Café da Manhã), recém-estreada em Hanôver, David Gieselmann mostra um pai de família no encalço dos familiares suspeitos de roubar o iogurte que ele reserva todos os dias para o café da manhã. Em Soylent Green ist Menschenfleisch, sagt es allen weiter! (Soylent Green é/come carne humana. Podem espalhar isso para todo mundo!), recém-estreada na Volksbühne de Berlim, René Pollesch (1962) se inspira num filme de ficção científica dos anos 70 para mostrar que a atuação humana se restringe a três atividades básicas: comer, transar e comprar.

Novas formas marginais de vida e de comunicação estiveram à mostra, até domingo (22), na terceira edição do Festival Internacional de Nova Dramaturgia, que desta vez reuniu jovens dramaturgos e diretores da Alemanha e Escandinávia, dos Estados Unidos e Países Baixos.

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