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Cultura

O que sobrou de Freud?

Por ocasião dos 150 anos do nascimento de Freud, o mundo prepara uma verdadeira arqueologia de seu saber. Dos mal-estares detectados na civilização às infindáveis interpretações do sonho, seu nome continua presente.

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Sigmund Freud, em abril de 1931

De A a Z, da Áustria ao Vietnã, a partir das mais diversas referências e fazendo uso de um sem número de associações. Organizados por instituições públicas, institutos de psicanálise, editoras, museus ou festivais.

Do fórum de debate conduzido pela Universidade de Pequim à semana freudiana de cinema em Budapeste. Da produção do Manifesto Freud por cinco artistas egípcias a uma mostra fotográfica em Nova York sobre o contexto cultural do fin de siècle em Viena.

Ou seja, o que sobrou de Freud, 150 anos após seu nascimento – em 6 de maio de 1856 – e mais de 60 anos depois de sua morte? Muito, há de se convir. Pois não há praticamente um campo das Ciências Humanas que permaneça incólume às suas teorias, desde o "olhar inconsciente" da análise cinematográfica até os elogios a seu estilo literário, como o registrado há pouco pela austríaca Elfriede Jelinek, ao afirmar que Freud foi um dos "escritores mais significativos do idioma alemão".

O divã no divã

Sua posição como "pensador do século 20" por excelência, apesar das inúmeras revisões e "correções" das últimas décadas, parece incontestável. O que pode ser percebido na recente polêmica em torno do Livro Negro da Psicanálise ( Le Livre Noir de la Psychanalyse, Éditions des Arènes, Org. Catherine Meyer) , atacado por seus críticos como sendo uma tentativa de domesticar a prática psicanalítica e como forma barata de se opor ao pensamento sociopolítico e, por isso, incômodo de Freud.

Prova de que a herança freudiana pode ser considerada peça de museu, mas jamais é vista como um arquivo morto. No "livro negro" em questão, a teoria psicanalítica é responsabilizada por "danos irreparáveis" e "milhares de vítimas" em função de posições relacionadas ao autismo, homossexualismo e dependência de drogas. Ou seja, Freud pode ser atacado por muitos, mas quase nunca é ignorado. Muito pelo contrário.

Viena: relação ambígua

O tão polêmico volume teve mais de 20 mil exemplares vendidos na França em poucas semanas e foi amplamente discutido no país. Ao contrário do ocorrido na Áustria, o país onde Freud viveu por mais de 70 anos, tendo sido obrigado a fugir durante o regime nazista.

"Isso acontece talvez em função de um cuidado exagerado, pois Freud é lembrado no país como um subcapítulo do Holocausto", observa a jornalista Julieta Rudich, em texto publicado pelo diário espanhol El País.

Em Viena, a cidade onde ele passou praticamente toda a vida, estão programados, por ocasião dos 150 anos de seu nascimento, ciclos de debate, leituras, festivais de cinema e outros eventos culturais que remetem ao pensador. Mesmo que a cidade não possua, até hoje, uma cadeira de Psicanálise em seus cursos universitários.

"Labirinto de segredos"

Daniel Libeskind, Jüdisches Museum Berlin

Museu Judaico de Berlim

Em Berlim, que um dia queimou seus livros em praça pública, o Museu Judaico inaugura em abril próximo a mostra PSICanálise ( PSYCHOanalyse), que divide a vida de Freud em diversas "estações" e conduz o visitante, através de um labirinto interativo, pelos conceitos básicos de suas teorias.

O divã ocupa aqui um lugar especial. Uma instalação composta por cenas compiladas nos mais de cem anos de história do cinema tenta passar "um pouco da fascinação e dos segredos em torno da psicanálise", prometem os curadores.

Importância cultural

A essência do legado de Freud fica, porém, longe do divã. É possível que o próprio, se estivesse vivo, apontasse falhas nas teorias que desenvolveu. "Ele não via na terapia sua grande obra, mas na importância cultural da psicanálise", observa o psicólogo Wolfgang Mertens ao semanário alemão Die Zeit.

Neste contexto, é interessante notar que na França mais de 60% dos psicoterapeutas ainda se apóiam na psicanálise, enquanto na Alemanha apenas 10% dos unviersitários que concluíram a graduação em Psicologia, nos últimos três anos, optaram pela formação psicanalítica.

Pontos de interseção

Mas é certamente nos pontos de interseção da psicanálise com a literatura, a filosofia, o cinema, a sociologia, a antropologia e outros saberes que se torna nítida a necessidade de lembrar Freud.

O que talvez explique por que seu nome – com ou sem "livros negros" – continua ocupando um "lugar de honra" na França de Jacques Lacan. O país onde, afinal, grande parte dos pensadores contemporâneos – de Foucault a Deleuze e Derrida – se apoiaram no saber freudiano. Mesmo que para, às vezes, desconstruí-lo.

Continue lendo: neopositivistas; Mann, Döblin, Musil e Zweig; ferramenta civilizatória, o mal-estar que persiste.

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