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Mundo

O que significa "europeu"?

Até que ponto a Europa é européia? Dificilmente daria para se falar de uma identidade cultural comum num continente de tanta diversidade, mas sua história de rupturas é um ponto de partida para identidades locais.

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Tradição européia: uma história de rupturas

No dia 9 de maio se comemora o dia oficial da Europa, uma data introduzida pela União Européia como marco da convergência político-econômica do continente. Nesta data exata do ano de 1950, o chanceler francês Robert Schuman divulgou sua proposta histórica por uma Europa unida, um marco no processo de unificação européia.

Há também quem já tenha comemorado o Dia da Europa há quatro dias, pois o Conselho da Europa escolheu como motivo de festividade sua data de fundação, em 5 de maio de 1949. Parece que nem nisso os europeus conseguem chegar a um consenso...

Pluralidade cultural

Mas o que seria "europeu", considerando a ampla diversidade cultural deste continente? Só dentro da União Européia, ou seja, sem contar os países europeus que (ainda) não fazem parte da comunidade, falam-se 60 línguas nativas, das quais 20 são reconhecidas como oficiais. Isso, sem contar dezenas de outros idiomas de outras partes do mundo, falados pelas comunidades de migrantes em diversos países.

"A língua é a expressão direta da cultura. É ela que nos torna humanos e constitui nossa identidade. No artigo 22 da Carta dos Direitos Fundamentais da União Européia, a comunidade se compromete a respeitar a diversidade das culturas, religiões e línguas." Isso é o que consta da mais recente estratégia de pluralidade lingüística da Comissão Européia, divulgada em novembro do ano passado.

Europeu em relação ao exterior

"Unida na diversidade": é assim que a União Européia caracteriza sua forma de agregação cultural. No entanto, um mosaico de culturas não necessariamente constitui uma identidade comum.

A reflexão sobre uma identidade européia tem sido incitada sobretudo pelo impulso de se distinguir de terceiros, seja em relação ao mundo islâmico ou ao intervencionismo da política externa norte-americana. Tanto no debate sobre o uso do véu por mulheres muçulmanas, como no escândalo das caricaturas de Maomé, por exemplo, todos os argumentos conflitantes provêm de um repertório de valores considerados conquistas européias.

Ambigüidade do europeu

Quem defende a liberalização do uso do véu islâmico alega tolerância religiosa; quem o combate inclui-se na luta contra a discriminação da mulher na sociedade. Quem condena a publicação das caricaturas de Maomé pela imprensa dinamarquesa mostra respeito às minorias religiosas da Europa; quem a endossa defende a liberdade de opinião e imprensa.

Ou seja, a identidade européia pode ser usada como argumento para as mais divergentes posições. Muitos consideram a Europa uma comunidade de valores comuns, que poderiam ser resumidos num equilíbrio entre liberdade individual e respeito à comunidade. Mas as opiniões divergem quanto ao alcance de ambos.

Civilização à prova

A constituição de uma identidade européia remonta às suas origens na civilização grega, ao desenvolvimento do Ocidente cristão e à continuidade de um pensamento racionalista desde o Renascimento até o Iluminismo e depois. No entanto, as conquistas destas tradições para a civilização européia sempre tiveram que passar por provas de fogo.

Desde a democracia grega, a Europa já teve que combater muita ditadura. Desde antes das perseguições religiosas medievais, são incontáveis as vítimas de intolerância para com outras confissões. E as conquistas racionalistas do Iluminismo não foram suficientes para conter a irracionalidade dos extermínios de massa do século 20.

Dissociação: um "dote genético"

A história do século 20, com as duas grandes guerras e o Holocausto, é a base de uma identidade histórica, porque todos os traumas e rupturas requereram a elaboração e ponderação de valores comuns. A Europa aprendeu com sua história e não pretende abrir mão deste aprendizado: talvez este seja um ponto com o qual todos os europeus se identifiquem, uma base sobre a qual se constroem as mais diversas identidades locais.

Quando o olhar se volta estritamente para dentro do continente, no entanto, seria mais oportuno falar de pluralidade e diversidade. Afinal, como diria o escritor suíço Adolf Muschg, a tendência de dissociar e dividir "é uma especialidade da Europa, praticamente um dote genético".

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