O que Putin espera de Trump | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 15.01.2017
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Rússia-EUA

O que Putin espera de Trump

O entrelaçamento de interesses e expectativas entre o presidente eleito dos EUA e o Kremlin vem de bem antes da vitória do republicano. Às vésperas da posse, o clima em Moscou oscila entre euforia e reserva.

É 17 de dezembro de 2015. A caminho da saída, após sua coletiva de imprensa anual, o presidente russo, Vladimir Putin, ainda responde a algumas perguntas. Um jornalista aborda o tema Donald Trump.

"Ele é um homem muito marcante, sem dúvida talentoso", diz Putin, definindo o bilionário americano como "um líder absoluto na campanha eleitoral presidencial". Na época, Trump ocupava a primeira posição nas pesquisas entre os republicanos.

"Ele fala de entrar num outro nível, mais profundo, nas relações com a Rússia", prosseguiu o chefe do Kremlin. "Como poderíamos não saudar isso? É claro que saudamos." Trump retribuiu no dia seguinte: era uma grande honra ser elogiado por um homem "que é tão respeitado no próprio país e no exterior".

Desde essa troca de elogios, muita coisa aconteceu. Trump venceu a eleição e será empossado nesta sexta-feira (20/01). Já durante a campanha, ele fora tachado de "marionete de Putin" pela mídia e pela adversária Hillary Clinton, com base não só em sua retórica pró-Kremlin como nos numerosos contatos entre seus associados e Moscou. Trump e a Rússia descartaram as acusações como "disparate" e retórica eleitoreira.

Após o pleito, novas acusações colocaram Trump sob pressão: serviços secretos dos EUA culpavam Putin de ter pessoalmente ordenado um ciberataque contra o Partido Democrático, a fim de prejudicar Hillary.

Depois de argumentar "não acredito" por algum tempo, Trump acabou admitindo que a Rússia seja responsável pelo ataque de hackers, negando, no entanto, ter quaisquer conexões com Moscou e ser chantageável, como se afirma num dossiê de grande impacto – porém não confirmado.

Kremlin à espreita

Quando o candidato republicano venceu, houve reações eufóricas na Rússia, com aplausos na Duma, a câmara dos deputados. O populista de direita Vladimir Jirinovsky distribuiu champanha. "É, a gente festejou por três dias", ironizou o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, num programa de TV, no fim de dezembro.

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Segundo ele, a euforia após a vitória de Trump seria inexplicável, porém compreensível: todos estão tão fartos da "besteirada" de Washington em relação à Rússia, que "qualquer esperança de algo positivo" faz ficar eufórico, argumentou.

Em contrapartida, nos meios diplomáticos moscovitas não houve grande euforia, afirma Alexei Venediktov, redator-chefe da prestigiosa rádio Echo Moskwy. "Os profissionais sabiam que isso torna o jogo mais difícil para nós."

A Rússia deveria tomar cuidado com Trump por dois motivos, alerta o jornalista: por um lado, Washington praticará "uma política muito reacionária"; por outro, ele é "muito impulsivo". Por isso, o Kremlin se mantém reservado e aguarda.

Putin quer respeito

De fato, Putin manteve a reserva. Trump recebeu duas mensagens por escrito de Moscou – os parabéns após a vitória e votos natalinos –, além de um telefonema. Um encontro pessoal estaria sendo organizado para após a posse, mas ainda sem data nem local fixos.

Uma declaração central de Putin direcionada a Trump permanece imutável, há meses: a Rússia estaria disposta a um restabelecimento das relações com os EUA. E não é culpa de Moscou que elas estejam tão mal.

É difícil prever agora como seria essa aproximação. Analisando-se os comentários de Putin: uma palavra aparece com grande frequência: respeito. Por várias vezes o chefe do Kremlin acusou Washington de não tratar seu país com a devida consideração, depois da queda da União Soviética.

Metas parcialmente alcançadas

Num congresso em Nova York, em novembro, Alexei Kudrin, ex-ministro das Finanças e antigo confidente do presidente russo, formulou assim a situação: "Acho que Putin gostaria que se escutasse mais a Rússia", referindo-se aos eventos mundiais que afetam interesses russos. E o presidente já atingiu sua meta de ser mais ouvido, acrescentou Kudrin, apontando os efeitos da ação russa na Ucrânia e na Síria.

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No topo da lista de desejos de Putin para Trump deve estar a suspensão das sanções impostas contra seu país em 2014, após a intervenção russa na Ucrânia. No entanto o Kremlin deixou entrever que não espera que tal ocorra tão rapidamente.

O reconhecimento da anexação da península da Crimeia parece ser outra meta importante para Moscou. Ambos os assuntos estão relacionados, e em sua campanha Trump mostrou-se disposto a conversar a respeito.

Distância da Otan

Em relação à Ucrânia, não se descarta que Moscou pretenda envolver o novo governo em Washington em conversas diretas. Na política russa, reina unanimidade em um ponto: a Rússia quer dos EUA garantias de que a Ucrânia jamais seja integrada à Organização do Tratado do Atlântico Norte.

No geral, há anos o desejo dos russos é que a Otan se mantenha longe de suas fronteiras. Isso vale também para o escudo antimísseis no Leste Europeu, cuja construção é criticada por Moscou. No entanto, assim como em relação às sanções, aqui as expectativas na Rússia são bastante baixas. Compreende-se que uma mudança de curso na Otan não ocorrerá imediatamente, admitiu o porta-voz Peskov.

De volta às esferas de influência

No caso da Ucrânia, a Rússia quer, além disso, que uma aproximação do país à União Europeia seja previamente acordada com Moscou. O mesmo se aplica a outras ex-repúblicas soviéticas, como a Geórgia ou a Moldávia.

Embora não se formule oficialmente desse modo, o que Putin almeja é um maior direito de decisão na solução de diversos problemas mundiais, como o conflito na Síria, e uma espécie de direito de veto quando se trate da vizinhança imediata da Rússia. No fim das contas, isso significaria um retorno à política das esferas de influência.

O que pode vir de Moscou?

Há meses, vários analistas vêm especulando o que Putin teria a oferecer a Donald Trump, numa espécie de retribuição por ele servir aos interesses russos. Embora não haja uma resposta definitiva, num aspecto a Rússia continua sendo um parceiro viável para os Estados Unidos: na luta contra o terrorismo islâmico. Segundo a avaliação de Moscou, trata-se de um tema em que a retórica de Putin e a de Trump se aproximam bastante. Isso dá margem a esperanças.

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