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Esporte

O que há com o Bayern de Munique?

"Melhor equipe de todos os tempos" do clube vira saco de pancada dos rivais europeus. Líder do Campeonato Alemão sofre eliminação histórica na primeira fase da Liga dos Campeões.

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Hitzfeld, quem está na chuva é para se molhar

Ao conquistar em 2001 a Liga dos Campeões e a Taça Intercontinental de clubes, o treinador Ottmar Hiztfeld e sua equipe de estrelas mundiais completaram sua coleção de títulos. Haviam vencido – ao menos uma vez – todos os campeonatos e torneios alemães e europeus que disputaram desde 1998. Apesar dos alertas de que o auge também poderia significar o início da decadência de uma equipe sem novos desafios, o Bayern de Munique adotou a postura de time que está ganhando não se mexe.

De fato, a máquina bávara perdeu o embalo, da mesma forma que o Borussia Dortmund após vencer a Liga dos Campeões em 1997. Com o Bayern, foram precisos alguns meses para que a direção caísse na real e anunciasse mudanças radicais no elenco. No fim da temporada, despediu-se do capitão Stefan Effenberg, do brasileiro Paulo Sérgio, do zagueiro suíço Sforza e do atacante Jancker, trazendo o sangue novo de Ballack, Zé Roberto e Deisler.

Liqüidação da "melhor equipe de todos os tempos"

No começo da atual temporada, o presidente do Bayern S.A., Karl-Heinz Rummenigge, fixou o parâmetro do novo time: "a melhor equipe do clube em todos os tempos". A inédita eliminação precoce na Liga dos Campeões – com quatro derrotas e um empate – mostra, porém, que o sapato novo ficou grande demais para o verdadeiro tamanho do pé bávaro.

"O que vivenciamos aqui, não foi uma decepção, mas uma humilhação, uma vergonha para o Bayern", admitiu Rummenigge em seu discurso para os jogadores no tradicional banquete no hotel após a partida em La Coruña (2 a 1 para o Deportivo). Não bastasse a eliminação na Liga dos Campeões, o time nem sequer terá o consolo reservado aos terceiros colocados de disputar a Copa da Uefa. À decepção esportiva e aos danos à imagem do clube, some-se queda na receita. Fora das competições européias, o Bayern calcula perder 30 milhões de euros em arrecadação prevista para esta temporada. Para equilibrar o orçamento, não resta alternativa que não vender alguns jogadores.

"Os jogadores não me deixaram na mão conscientemente"

O técnico também pode estar com seus dias contados no clube. Ao contrário do costume, Hitzfeld ficou desta vez sem declarações de confiança de Rummenigge e do diretor Uli Hoeness. Ambos silenciaram. "É a calmaria antes da tempestade", admite o treinador, para quem o Bayern chegou no auge a aventar a hipótese de um contrato vitalício.

Nas entrevistas depois do jogo em La Coruña, o técnico de 57 anos não lavou as mãos. "Sempre levei meus times pelo menos às quartas-de-finais em competições internacionais. Estou chocado. Mas não quero me esquivar das críticas", disse Hitzfeld. Em princípio, atribuiu aos jogadores o fracasso: "Falta entusiasmo, paixão e fé. Alguns jogadores ainda não sabem conviver com a pressão. É um problema psicológico." Mas também insinuou que talvez ele mesmo esteja sendo incapaz de estimular seus comandados, num sinal de autocrítica: "Com certeza, os jogadores não me deixaram na mão conscientemente."

O que mudou no elenco

A discussão sobre a ausência de comando acompanha todas as equipes – inclusive a seleção nacional – por onde passa Ballack, a grande revelação do futebol alemão dos últimos anos. O ex-jogador do Bayer Leverkusen brilha com a bola, mas não convence no papel de líder que tanto lhe exigem, como armador. Um comportamento bem diferente em relação ao dispensado Effenberg, que além de ter visão de jogo e ser habilidoso cumpria radicalmente sua missão de capitão em campo.

Hoje o papel cabe oficialmente ao goleiro Kahn. No entanto, contundido, ele foi dispensado da viagem a La Coruña pelo treinador, o que não agradou a diretoria, que acha que o capitão poderia ter ajudado a incentivar os colegas mesmo fora de campo. Para piorar o moral interno no elenco, o capitão tem sido protagonista de indisciplina. Em campo, agrediu Brdaric no duelo da Bundesliga com o Bayer Leverkusen. Em tratamento de reabilitação, foi pego jogando golfe e, no último sábado, arejando a cabeça numa discoteca, até quase de manhã, junto com seu irmão, que naquela noite acabou denunciado à polícia por agressão física e verbal a uma estudante.

Parceiro de Ballack no meio-campo desde o Leverkusen, o brasileiro Zé Roberto também ainda não mostrou seu potencial no Bayern, após ter se destacado na temporada passada. Entre os veteranos, dá-se pela falta dos gols decisivos de Élber, apesar de o atacante brasileiro liderar a artilharia no Campeonato Alemão.

Há deficiências também na defesa. Desde que Lothar Mathäus pendurou as chuteiras, a retaguarda bávara vive insegura. Sforza, Kovac, Thiam. Nenhum dos reforços trouxe tranqüilidade. Kuffour continua instável e os laterais franceses Sagnol e Lizarazu já não rendem o mesmo que anos atrás.

A falta que Beckenbauer faz

A decadência bávara igualmente coincide com a transformação do departamento de futebol em sociedade anônima. Presidente do clube, Franz Beckenbauer não interfere mais pessoalmente nos assuntos relativos ao Bayern S/A, presidido por Rummenigge. Ninguém esquece do humilhante sermão que o Kaiser do futebol alemão passou nos jogadores do clube após uma derrota em Lyon. O discurso mexeu com os brios dos contratados que acabaram dando a volta por cima e levando a equipe à conquista da Liga dos Campeões em 2001.

Em La Coruña, mesmo depois de a vaca já ter ido para o brejo, o discurso de Rummenigge nem chegou de perto da agressividade de Beckenbauer. O presidente do time-empresa limitou-se a chamar os jogadores de "fracassados" e lembrar que "palavras como disciplina – também fora de campo –, combatividade e paixão têm de voltar ser escritos com letra maiúscula por todos".

Naquela noite, o Kaiser estava naquela noite bem longe dali, no Catar, como presidente do comitê organizador da Copa de 2006. Tenha sido coincidência ou não, ao menos poupou-lhe de presenciar o vexame. Nem por isto deixou de dar seu recado ao time e a seus responsáveis: "Nas últimas semanas, muito se tem falado de destino, da falta de sorte, de azar. Mas, sejamos honestos, também não se fez nada para mudar este destino."