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Cultura

O Muro: patrimônio da humanidade?

Apostando no valor dos espaços vazios como registros históricos, arqueólogos procuram rastros do Muro que dividiu Berlim a partir de 13/08/1961. As cicatrizes deixadas pelo concreto são vistas como valiosos testemunhos.

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Turistas visitam o pouco que restou do Muro de Berlim

A fila de espera para a entrada na lista do que é considerado pela Unesco patrimônio cultural da humanidade é grande. Entre os "concorrentes", está um candidato "ausente", ou melhor, os restos do mesmo. Segundo defendem alguns arqueólogos, políticos e cientistas alemães, os resquícios do Muro que dividiu Berlim a partir do 13 de agosto de 1961 deveriam entrar para a história como "testemunhas petrificadas da Guerra Fria".

Discussão legítima

A discussão, segundo Christine Merkel, representante da Unesco em Bonn, é "absolutamente legítima e sensata". Afinal, ao patrimônio cultural da humanidade pertencem "testemunhos de culturas passadas e paisagens únicas, cujo declínio significaria uma perda irreparável". Como prova de que a preservação dos rastros históricos é tarefa da Unesco, o campo de concetração de Auschwitz e o memorial de Hiroshima foram incluídos em sua lista.

Agora, 42 anos após a construção do Muro de Berlim e 14 anos após sua queda, especialistas saem pelas ruas da cidade tentando resgatar o que ainda sobrou da faixa de 155 km (43km no perímetro urbano, 112km pertencentes ao Estado de Brandemburgo) de concreto que um dia dividiu a cidade entre leste e oeste. O problema é que após a reunificação, tudo o que se referia ao Muro foi destruído o mais rápido possível. Tanto pelas autoridades, quanto por parte da população.

Ainda em dezembro de 1989, um mês após a queda, o governo ainda existente da antiga Alemanha Oriental selou o Muro como patrimônio histórico. Entretanto, as placas de proteção aos pedaços de concreto acabaram surtindo o efeito contrário, servindo como uma espécie de chamariz para todos aqueles que comemoravam com prazer sua destruição.

Armadilha turística

Exceto restos como os deixados acerca do museu Martin-Gropius-Bau ou na Bernauer Strasse, o Muro se perdeu quase por completo na paisagem urbana da Berlim reunificada. Até mesmo os 45 metros da East Side Gallery, transformados em uma espécie de galeria de arte a céu aberto, correm o risco de vir abaixo, em prol da construção de um grande teatro de arena.

Na "armadilha turística" Checkpoint Charlie, "nada mais é original", diz o arqueólogo Leo Schmidt ao semanário Die Zeit. "Nem mesmo a placa você está deixando o setor americano é autêntica. Tudo teatro, cenário, réplica. Mesmo os sacos de areia, em frente aos quais os turistas posam para fotos, são de concreto".

Schmidt, que documenta para a prefeitura de Berlim há dois anos o que ainda sobrou do Muro, acredita que gerações futuras irão um dia procurar por provas do que foi aquela massa de concreto. Em algumas regiões da cidade, é ainda possível detectar que a vegetação demorou muito para voltar a crescer no percurso do Muro ou o que a cor pálida de uma parede ainda restante significava em uma área proibida de ser pisada. Escavações são completamente desnecessárias, mas a topografia das zonas proibidas é detalhadamente avaliada, documentada, categorizada.

Banalidade maior impossível

Mesmo entre especialistas, o projeto de pesquisa conduzido por Schmidt é tido como ambíguo. O arqueólogo defende: "Acredita-se saber absolutamente tudo sobre o presente, podendo incluir em livros e atas a história atual. Mas exatamente o óbvio acaba passando sem ser documentado". Frente a seus colegas que se dedicam a templos milenares, o objeto de pesquisa do arqueólogo parece quase uma piada. "Em termos de material é o que há de pior. Banalidade maior impossível." O valor, segundo ele, está no enorme poder de testemunho destes pedaços de concreto.

Em alguns lugares, como nas redondezas do Checkpoint Charlie, no bairro Mitte, olha-se hoje de um lado para outro da rua e só se vêem os ecos de uma arquitetura tida como moderna, porém uniforme. Um cenário que não dá mais pistas sobre o que um dia foi Berlim Ocidental ou Oriental. No entanto, para a equipe de arqueólogos em suas andanças, tudo é digno de registro: "Até o vazio tem um valor para o patrimônio. Principalmente considerando que até hoje as duas metades da cidade continuam claramente desligadas uma da outra ", diz Schmidt ao Die Zeit. Cicatrizes certamente inevitáveis das quatro décadas de divisão.

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