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Cultura

O lado perigoso da musicologia

O ISMPS, uma instituição luso-teuto-brasileira sediada em Colônia, prova que a música está mais próxima da vida real do que se imagina, e que estudá-la não é uma atividade totalmente livre de riscos.

Quem está firmemente convencido de que a musicologia é matéria apenas para iniciados, esotérica, quase abstrata, pôde rever seus preconceitos nestes dias 1º e 2 de fevereiro, quando a Akademie Brasil-Europa, sediada em Colônia, promoveu um colóquio sob o título Dimensão européia da cultura musical portuguesa. O evento teve o apoio da Universidade de Colônia e do Instituto Ecumênico de Pós-Graduação/IECLB (Rio Grande do Sul), entre outras instituições, e contou com a participação de estudiosos e músicos do Brasil, Alemanha, Portugal e Itália.

As palestras e concertos cobriram uma gama surpreendentemente ampla, indo desde os primórdios da polifonia sacra à música no cinema português; das sonatas do italiano Domenico Scarlatti (1685–1757) - que viveu oito anos em Portugal - a obras do gênio brasileiro Heitor Villa-Lobos, executadas pela saxofonista Maria Bragança e o pianista Michael Collins.

Entre os participantes brasileiros do simpósio, estiveram o regente Nazir Bittar, de Campinas, que expôs a Dimensão européia do fandango, uma dança encontrada tanto no Nordeste e no Sul do Brasil como em relatos ibéricos da Idade Média, e a professora Helena de Souza Nunes, do Instituto de Artes da UFRGS, falando sobre o projeto de educação musical Cante e dance com a gente.

Musicologia que vai além da música

A palestra de abertura coube ao presidente do Instituto de Estudos da Cultura Musical do Mundo de Língua Portuguesa (ISMPS), Antonio Alexandre Bispo. Discorrendo sobre 90 anos de uma colaboração luso-brasileira, Bispo chamou a atenção para o nome do instituto de pesquisas que fundou em 1985: não se trata de um centro para o estudo de aspectos puramente técnicos e históricos da música, mas sim da cultura musical, ou seja, desta expressão artística dentro de um contexto muito mais abrangente, compreendida como expressão e, ao mesmo tempo, linha-mestra para visões do mundo e do ser humano.

Fiel a esta concepção, que se poderia definir como holística, o diretor do ISMPS traçou um amplo arco, ligando a filosofia de Antônio de Lisboa (ou de Pádua) ao destino dos emigrantes portugueses que chegaram a Manaus em 1911, fugindo do opressivo clima de pessimismo cultural em seu país natal. Entre eles encontrava-se J.A. do Rego, personalidade marcante na tradição luso-brasileira do ISMPS.

História que se repete

Uma exposição de caricaturas e partituras musicais, instalada na sala de palestras da Akademie Brasil-Europa, ilustra precisamente este Portugal do início do século 20, espezinhado no panorama cultural da "outra" Europa e saudoso de sua época de ouro, sentimentos estes exacerbados pela Exposição Mundial de 1900. Paralelamente, a mostra nos lembra dos paralelos entre a psicologia do Brasil contemporâneo e a de nossos antigos colonizadores.

Assim, vemos a efígie da rainha Vitória, com a legenda: "A única vitória dos ingleses!"; ou um grupo de portugueses que, sob o título Canto coral, são forçados a entoar God save the Queen. Uma mistura de sentimento de inferioridade, revolta, potenciais não reconhecidos e orgulho nacional ferido, que soa incomodamente próxima para um brasileiro atento, mesmo em pleno alvorecer do século 21. Na música portuguesa da época, estes sentimentos se expressam em títulos como Fado triste ou E a viola quebrou.

A queda do Muro e a musicologia lusófona: uma questão polêmica

Uma prova do alcance inusitado de idéias "meramente" musicais ficou ilustrado durante a última parte do programa de abertura, quando o professor Bispo apresentou a versão para a internet da revista Correspondência Musicológica Euro-Brasileira. Esta tem uma história curiosa: nascida como boletim da Sociedade Brasileira de Musicologia, a publicação manteve, praticamente sozinha, vivo o elo entre pesquisadores brasileiros, em solo natal e no exterior, entre 1989 e 1993.

Na época, a Correspondência foi editada em pequena tiragem (cerca de 300 exemplares) e com modesta qualidade gráfica. Agora, o ISMPS compensa estas deficiências, publicando progressivamente na internet excertos significativos de todos os números da revista, acrescidos de rico material iconográfico.

O nº 8, o último de 1990, foi certamente o mais polêmico na trajetória da Correspondência Musicológica Euro-Brasileira. Ele foi dedicado às conseqüências da queda do Muro de Berlim para a musicologia lusófona. Afinal, uma parte dos musicólogos, especialmente de Angola, formara-se na República Democrática Alemã e, portanto, dentro do arcabouço ideológico socialista: uma visão do mundo tornada agora tão "obsoleta" como a divisão da Alemanha em duas metades adversárias.

Para equilibrar a balança e fazer jus à realidade, a outra parte da publicação trata da perigosa sobrevivência de paradigmas nacional-socialistas na musicologia ocidental. A repercussão resultante foi tão violenta, que Antonio Bispo afirma hoje: "Nunca mais faremos um número assim!". Promete, mas não sem um sorriso de entusiasmo incontido.

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