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Mundo

O interminável conflito na República Democrática do Congo

Vinte anos após o genocídio, Ruanda vive momento de paz. Mas, do outro lado da fronteira, no leste congolês, guerra envolvendo milicianos ruandeses da etnia hutu mantém a violência presente.

Kikuny é "o advogado" – o homem por trás da milícia Raia Mutomboki, que significa "povo enfurecido". Ele explica o nome do grupo, que atua em vários vilarejos do leste da República Democrática do Congo (RDC), mostrando uma coleção de crânios humanos.

Ele conta que vem de um pequeno vilarejo três vezes incendiado pelas chamadas Forças Democráticas pela Libertação de Ruanda (FDLR), uma milícia hutu, mesma etnia responsável pelo genocídio de 1994. Como não havia qualquer proteção à população local, eles formaram a Raia Mutomboki. E guardam os crânios dos mortos pela FDLR para justificar sua luta.

"Mostramos esses crânios à comunidade internacional para ilustrar a verdade", diz Kikuny. O presidente de Ruanda, Paul Kagame, também costuma mostrar aos visitantes em seu país os ossos e crânios das vítimas do genocídio de 1994, como prova do genocídio.

"Também mostramos as caveiras das nossas vítimas, porque já estamos fartos do falatório. A comunidade internacional deve entender que temos nossas razões para nos revoltarmos. Se não, vão matar todos nós", continua Kikuny.

Atrocidades de ambos os lados

A fuga de milhões de ruandeses do genocídio de 1994 fez com que o conflito chegasse também ao vizinho Congo. A FDLR, que abriga muitos dos que participaram do massacre, é um dos maiores fatores que levam a guerra a continuar no Congo, enquanto Ruanda, duas décadas depois, vive uma paz duradoura.

FDLR Kämpfer

Combatentes das Forças Democráticas da Libertação de Ruanda (FDLR)

Os campos de refugiados na RDC estão superlotados. Só na província de Kivu, no norte do país, mais de um milhão de pessoas se amontoam em buscam de abrigo. Algumas famílias vivem há anos em condições miseráveis, dependendo de doações de alimentos.

Ao serem questionados sobre quais ameaças eles temem em seus povoados, os congoleses sempre mencionam a FDLR. A milícia reuniu, em 1994, também soldados do antigo Exército de Ruanda, que haviam sido expulsos por Kagame, o atual presidente, e seus rebeldes.

"O que incita repetidas vezes a guerra em nossa região, Masisi, é a presença da FDLR. Já é hora de eles retornarem à sua terra, Ruanda, caso contrário os congoleses jamais conseguirão viver em paz", diz Jeremi Hangi, porta-voz do campo de Minova, no leste do Congo.

A FDLR possui cerca de mil combatentes. Hoje, eles se dizem protetores dos 20 mil refugiados hutus no Congo, em grande parte mulheres e filhos de milicianos. Para poder alimentar os refugiados, a milícia costuma saquear povoados, se apropriando das colheitas ou expulsando os congoleses de suas próprias terras.

Os congoleses lutam contra esse reinado de terror. No início, apenas congoleses tutsis pegaram em armas para enfrentar os extremistas hutus. Agora, 20 anos após a ocupação, há milicianos da Raia Mutomboki em quase todos os vilarejos afetados pela violência.

No que se assemelha a uma revolta popular, milhares de combatentes da Raia Mutomboki passaram a promover uma caçada à FDLR nos vilarejos. O que o líder da milícia ruandesa não comenta, porém, é que seus homens também cometem atrocidades, esquartejando a golpes de facão filhos e mulheres de seus rivais.

Chance à paz

Desde então, os ruandeses do FDLR estão em fuga com suas famílias. Há tempos eles já não têm força suficiente para travar uma guerra contra seu país. Ainda assim, a milícia hutu insiste em negociar com o governo tutsi de Ruanda, como afirma o comandante da FDLR, o coronel Stany.

"O regime em Ruanda se refere a nós como genocidas e terroristas. Isso é mera propaganda. Queremos ser vistos com ruandeses, como qualquer outro. O mundo nos esqueceu", afirma.

Raia Mutomboki Anführer mit Totenschädel

Miliciano do Raia Mutomboki com um dos crânios das vítimas

O coronel vê sua milícia na condição de vítima. A acusação de genocídio levou agências das Nações Unidas a congelarem a ajuda a refugiados hutus. As crianças da FDLR cresceram nos últimos 18 anos no Congo sem poder frequentar escolas e sem a oportunidade de conhecer sua terra natal.

"Não somos subumanos. Também temos o direito de participar no desenvolvimento de nosso país", diz o coronel Stany.

A FDLR tentou repetidas vezes negociar com o governo de Ruanda – porém em vão. A ONU desistiu de tentar persuadir a milícia a aceitar o desarmamento voluntário no Congo. As forças de paz no país preparam uma ofensiva militar para dar o golpe final na FDLR. Os congoleses, 20 após o genocídio, podem ter uma chance de, finalmente, viver em paz.

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