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Esporte

"O Everest virou um monte banal", afirma alpinista Reinhold Messner

Hoje qualquer pessoa que já tenha escalado uma montanha nos Alpes pode escalar o Everest, diz o italiano. Há 60 anos, quando o pico do monte mais alto do mundo foi alcançado pela primeira vez, o desafio era bem maior.

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Reinhold Messner

O alpinista italiano Reinhold Messner é frequentemente apontado como um dos melhores de todos os tempos. Ele foi o primeiro a chegar ao alto do Monte Everest sem a ajuda de garrafas de oxigênio, em 1978, e o primeiro alpinista a escalar todas as montanhas com mais de 8 mil metros de altura que existem no mundo, entre 1970 e 1986. Sempre sem oxigênio extra.

Hoje Messner vive no Tirol do Sul, norte da Itália, onde escreve livros e se dedica aos seus cinco museus de montanhismo. Ele falou à Deutsche Welle sobre os 60 anos da conquista do Monte Everest e a banalização do local, que virou uma meca para turistas interessados em alpinismo.

Deutsche Welle: Em 29 de maio de 1953, o neozelandês Edmund Hillary e o nepalês Tenzing Norgay alcançaram o pico do Monte Everest. Esse foi um desempenho excepcional de dois alpinistas ou a ação coletiva de um time?

Reinhold Messner: Em primeira linha foi mesmo um desempenho coletivo de um time britânico, pois eles tinham o know how e fizeram uma enorme preparação. Entre 1921 e 1953, muitas expedições fracassaram no Everest.

Entretanto precisamos atribuir uma parte do sucesso aos suíços, já que, em 1952, Raymond Lambert tentou duas vezes e chegou bem perto do cume. Tenzing Norgay também esteve nessas expedições. Sem isso, creio, os britânicos não teriam conseguido em 1953.

Mount Everest

Monte Everest, o pico mais alto do mundo com 8.848 metros de altura

Mas temos também que dizer que o sucesso da escalada se deve à ousadia de Hillary, a ele ter tentado. Os britânicos já haviam tentado e não conseguiram. Então veio esse jovem neozelandês e mostrou que tinha a vontade e a coragem para ousar, apesar de outros terem fracassado.

E foi assim que deu certo, e esse se tornou um grande momento do alpinismo. Hillary nem era um alpinista radical, mas um montanhista clássico, que trazia consigo muita autoconfiança. Um típico neozelandês.

Logo após a primeira escalada veio a fase esportiva, nos anos 60 e principalmente nos anos 70 e 80. Você conseguiu chegar ao pico sem a ajuda de máscaras de oxigênio em 1978, ao lado de Peter Habeler, e repetiu o feito em 1980, desta vez sozinho e novamente sem as garrafas de oxigênio e em meio à monção. O Everest era o maior desafio da época?

Depois da escalada da parte sudoeste por Doug Scott e Dougal Haston [dois alpinistas britânicos], em 1975, ficou claro para mim que agora tratava-se de escalar o Everest com cada vez menos equipamentos. Para mim, escalar sozinho o Everest tornou-se a cereja no topo do bolo: o mais alto monte do mundo, numa época do ano ruim, a monção, e, se possível, numa nova rota, claro que sem oxigênio.

Nos anos 90 começou o alpinismo comercial no Everest, que predomina até hoje. Como você vê o Everest hoje, passados 60 anos da primeira conquista?

Ainda é o mesmo monte. A pressão parcial de oxigênio ainda é a mesma. Ele também continua sendo relativamente perigoso.

Eu chamo a fase atual de alpinismo de pista. Essa é a grande diferença: antes de os clientes dessas agências de viagens começarem a escalada, os xerpas são enviados não só às dezenas, mas às centenas ao monte e deixam todo o caminho preparado. Essas rotas são melhor preparadas que qualquer rota nos Alpes. E então as pessoas só precisam seguir essas pistas, o que elimina as dificuldades e minimiza os riscos – claro que não totalmente, isso é impossível.

Agora surgiu a discussão sobre se o Hillary Step, o único pedaço de alta dificuldade na parte superior da montanha, deve receber uma escada, como já existe desde 1975 no Second Step [no lado norte do monte].

Eu sugeri que se colocasse um semáforo, como nas cidades, para que se saiba quando estes e quando aqueles devem subir. Aí os alpinistas terão de respeitar as leis de trânsito, e haverá menos acidentes. Esses acidentes acontecem por causa do caos, por causa da espera no frio. As pessoas sofrem de hipotermia, e algumas morreram lá em cima.

Com essas mudanças, o perfil do alpinista do Everest também mudou radicalmente.

Sim, porque hoje em dia há lá muitas pessoas que não são alpinistas ou, digamos, não são alpinistas experientes. Elas sabem que, se tanta gente já conseguiu, então é possível chegar lá em cima. Na prática, escalar o Everest é possível para qualquer um que tenha conseguido escalar um pico de quatro mil metros de nível fácil nos Alpes, isso se o caminho estiver preparado.

Eu posso garantir que, das mil pessoas que estão lá agora, nem ao menos três conseguiriam partir se não houvesse as rotas previamente preparadas. A montanha está toda preparada com cordas, escadas e correntes, e por isso ela é acessível a todos.

Se isso é certo ou errado, é pra mim relativamente indiferente. Isso não tem nada a ver com o alpinismo clássico. As pessoas não escalam o Everest de Hillary nem o meu, mas um outro monte, apesar de ele ser geologicamente o mesmo.

Qual seria o seu desejo para o jubileu de 60 anos do Monte Everest?

Creio que seja tarde demais. O Everest já se tornou um monte banal. Não creio que seja possível devolver a ele o charme que um dia teve. Os melhores alpinistas já não buscam mais os picos de oito mil metros, mas sim as montanhas mais difíceis do mundo, entre seis e sete mil metros de altura. Eles têm muitas outras opções. Mas é claro que é pena que muitos bons montanhistas não consigam recursos financeiros para financiar expedições ao Everest por causa dos turistas.