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Economia

O dilema das dívidas de Berlim

A capital alemã está no vermelho. E isso há anos. O Tribunal Constitucional analisa se a federação poderá perdoar parte das altas dívidas da cidade. As opiniões no país a respeito não são nada unânimes.

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'Berlim está falida', diz camiseta de manifestante nas ruas da capital

"Se Berlim fosse uma empresa privada, certamente já estaria falida". A frase foi dita pelo próprio secretário das Finanças da cidade, Thilo Sarrazin. O político social-democrata administra nada menos que 60 bilhões de euros de dívidas da capital alemã. E a tendência deste valor é aumentar ainda mais.

Ao lado de seu correligionário, o prefeito Klaus Wowereit, Sarrazin espera que o Tribunal Constitucional Federal compreenda os apertos financeiros por que passa a cidade no momento e concorde com parte do perdão das dívidas berlinenses. "Não estamos em condições de quitar sozinhos as dívidas e pagar os juros acumulados. Já nos esforçamos ao máximo, fazendo todo o possível. Implantamos uma política de recessão há anos, mas precisamos ainda assim da solidariedade da federação", afirma Wowereit.

Perdão de dívidas? Nein, danke!

Klaus Wowereit Weltkongress Metropolis 2005 in Berlin

Prefeito Klaus Wowereit, em congresso sobre o futuro da metrópole

A federação, porém, não parece muito apta a querer aceitar os pedidos de Berlim. Mesmo porque muitos dos outros Estados que a compõem são contra qualquer espécie de privilégio da capital.

Segundo o discurso dos opositores, "a culpa é da cidade", que vive esbajando o que não pode: com três universidades, três casas de ópera e muita coisa esperando para ser privatizada.

Sarrazin se defende, afirmando que a cidade já reduziu seus gastos em torno de 11% desde meados da década de 90. Enquanto a média no país de redução foi de meros 3,3%. Além disso, observa o secretário das Finanças, a cidade encolheu drasticamente o número de servidores públicos, que passaram de mais de 200 mil para cerca de 130 mil. E a economia não pára por aí: até 2012, deverá haver uma redução contínua de recursos humanos. Mais do que isso, diz Sarrazin, impossível.

Razões históricas

BdT: 44. Jahrestag Mauerbau, Berliner Straße

Construção do Muro, em 1961

A esperança do secretário das Finanças é de que os juízes do Tribunal Constitucional reconheçam os esforços da cidade e principalmente levem em conta as raízes de tal miséria financeira, ou seja, a divisão política e econômica da cidade de 1945 até a queda do Muro, em 1989.

Por ocasião do fim da Segunda Guerra, quase todas as empresas alemãs deram as costas a Berlim. E depois da queda do Muro, muitos dos estabelecimentos estatais da ex-Alemanha Oriental, de regime comunista, simplesmente faliram. Por essas e por outras, o principal empregador na cidade continua sendo o Estado. Sem ele, a taxa de desemprego, que gira em torno de 20%, seria ainda maior.

Ida sem volta

Das empresas que um dia haviam deixado a cidade, poucas retornaram depois da queda do Muro. Até mesmo a multinacional Siemens, fundada em Berlim, continuou mantendo depois da reunificação do país sua sede na próspera Munique. Outro caso de prosperidade "às custas da capital" é o de Frankfurt, que só se desenvolveu como centro financeiro depois da Segunda Guerra, quando os bancos do país procuraram uma sede que não a Berlim dividida de então.

Culturalmente única

Humboldt Universität in Berlin

Universidade Humboldt, uma das três da cidade

Um futuro promissor Berlim tem apenas no que diz respeito à cultura e à ciência. Setores em que a cidade é quase hors concours, mesmo em nível internacional. E que, diga-se de passagem, também propiciam a circulação de dinheiro, não podendo ser desprezados do ponto de vista financeiro, defende o advogado e promotor cultural Peter Raue.

"Berlim não tem carvão ou indústria, mas tem cultura. A cidade é o centro da vida intelectual na Alemanha. E, para isso, três universidades não são demais. A prova disso é que essas três universidades estão lotadas de estudantes", justifica Raue.

Ressentimentos antigos

Em outros confins do país, nem todos pensam assim. O jornalista Claudius Seidl, um dos adversários mais veementes da capital, acredita que a cidade vem há anos desperdiçando recursos acumulados a duras penas no resto do país. "Representação, simbolismo político, encenações em grande estilo. O resto da Alemanha iria ficar satisfeito se Berlim se tornasse simplesmente a sede de um bom governo. O resto é secundário", dispara Seidl.

Em tais depoimentos esconde-se uma boa dose de ressentimentos, cultivados durante os anos em que a cidade dividida servia de vitrine do sistema capitalista e recebia a tarefa de provar que este era melhor que o outro lado do Muro. Em todos esses anos, fluíram milhões e mais milhões para os cofres berlinenses. Sem que alguém abrisse a boca. Tempos que, pelo jeito, já se foram.

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